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Diário de Bordo e Álbum de FotografiasViagem pela Europa - Set-Nov/2006 |
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November 17 Viagem Lisboa - São Paulo: Último dia da viagem, com algumas reflexões sobre a União EuropéiaEstamos na Navigator Lounge da TAP no aeroporto de Lisboa. O embarque ainda vai demorar mais de uma hora. Tudo deu certo hoje de manhã. Eu me levantei às 4h, tomei banho, fiz a barba, e acordei a Sueli às 4h30. Enquanto ela tomava banho e secava o cabelo, verifiquei minhas mensagens e li a Folha. Depois, finalizamos a arrumação das malas, guardei o computador, e um pouco antes das 6h descemos, pagamos a conta, pegamos o carro e fomos para o aeroporto. A rua estava fazia. Chegamos sem problemas. No balão (na rotunda, como eles chamam o balão aqui) de chegada ao aeroporto o posto de gasolina estava aberto. Completei o tanque, para devolvê-lo cheio, e fomos para o aeroporto. Parei no setor de embarque, tiramos as malas, as colocamos em dois carrinhos, deixei a Sueli lá com elas e fui devolver o carro. Tudo aconteceu como previsto e sem problemas. Agora já estamos aqui na lounge, esperando o embarque. Tomamos café da manhã aqui mesmo. Espero que o que resta da viagem aconteça como deve, sem problemas. Saímos às 9h40 daqui, o que equivale a 7h40 no Brasil. O horário previsto para a chegada é 17h50, dez horas e dez minutos depois. Não acho muita graça em vôos longos durante o dia. Vôos longos foram feitos para a gente dormir, e é mais difícil dormir durante o dia, com a claridade entrando pelas frestas das janelinhas. Olhando para trás, aos 52 dias que hoje se encerram, não há como não concluir que a viagem não tenha sido excelente. Tudo aconteceu como previsto. Não houve problemas com a TAP (exceto um pequeno atraso na saída de São Paulo, que não atrapalhou a transferência para Praga em Lisboa no dia seguinte). Não houve problema algum com Imigração, Aduana (Alfândega), passaportes... Na verdade, nosso passaporte não ganhou sequer um carimbo, embora tenhamos passado por Portugal, República Tcheca, Áustria, Liechtenstein, Alemanha, Suiça, França, Espanha e, novamente, Portugal. As reservas dos hotéis também funcionaram perfeitamente. No geral, os hotéis foram de bons a excelentes. Em Augsburg e Genebra os quartos eram pequenos demais para o meu gosto. Mas, em compensação, em Salzburg, Paris, Lisboa e Porto – que no total somaram 30 dias – eram enormes e confortáveis (tirante a ausência de ar condicionado em Salzburg). O passe ferroviário da Eurail foi aceito sem problemas em todas as nossas viagens. Os trens, no geral, foram muito confortáveis. O trem português, que nos levou de Irún, na fronteira da Espanha com a França, até Lisboa, foi o pior deles, mas nesse trem tínhamos uma cabine leito, de boa qualidade, que nos manteve meio isolados. Em Lisboa, o carro da Avis estava esperando por nós, o preço era o previsto, sem problema algum. Dirigimos durante 16 dias, andamos quase 3 mil km, não batemos, o carro não quebrou, e não pegamos nenhuma multa. Na devolução do carro não houve surpresas nem problemas. O embarque no aeroporto também foi tranqüilo. Não se invocaram com o peso enorme de nossas três malas que foram embarcadas. Os lugares que reservamos, há tempo, 1A e 1B, estavam reservadinhos para nós. A lounge da TAP poderia ter um pouco mais de opções, mas é boazinha. Pelo menos tem Internet sem fio de graça... No aspecto, digamos, logístico, deu tudo certo. O que mais se pode esperar? No aspecto, digamos, de conteúdo, a viagem foi uma maravilha. A maior surpresa ficou por conta de Heidelberg. Praga foi a cidade de que mais gostei (além de Paris, que é hors-concours), mas já esperava que Praga fosse linda, porque todo mundo que esteve lá diz que é linda. Mas de Heidelberg eu não esperava muita coisa, a não ser a universidade – e cidade foi deliciosa. A maior decepção certamente foi Vaduz, em Liechtenstein. Esperava uma cidadezinha antiga, cheia de prédios bonitinhos e ruazinhas tortas. Não achei nada disso. É uma cidade minúscula, mas sem personalidade. Tem um castelo bonito por fora – por dentro não deu para ver, porque ele é habitado, e, portanto, não é “visitável” – mas c’est tout. Portugal é, em grande medida, o que eu esperava: um país pitoresco, bonito, charmant – e cheio de portugueses... Sinto-me, agora que estive aqui, como se tivesse pagado uma dívida para com meus antepassados – ninguém acreditava que uma pessoa tão viajada como eu nunca houvesse estado exatamente em Portugal, a terra de seus antepassados (como não acreditam que eu, que já estive em Madras, Calcutá, e Bombain, na Índia, em Canton, Beijing, Shangai, Hong Kong e Macau na China, em Barbados e na Jamaica, no Caribe, nunca tenha estado em Londres... Choses de la vie). Gostamos de ver a televisão portuguesa. Há, no momento, três novelas brasileiras passando aqui: Sinhá Moça, Cobras e Lagartos, e Laços de Família (não sei se, neste caso, em reprise). Há bastante noticiário, há programas de entrevistas (talk shows) e há umas comediazinhas meio sem graça. E há esporte, bastante esporte. Enfim, foi uma grande viagem de férias. Mas estamos contentes de estar voltando para casa. A saudade dos filhos e dos netos é enorme. Contei, numa crônica que escrevi logo no início, que o Antonio Fagundes havia vindo no mesmo vôo que nós, no dia 27/9. Quando chegamos ao Porto vimos cartazes com ele pela cidade inteira. Havia uma peça de teatro com ele. Durante alguns dias ela esteve num teatro, em outros dias esteve em outro. Creio que terminou no dia 12/11. Imagino que, antes do Porto, a peça deva ter estado em cartaz aqui em Lisboa. Só falta ele estar no mesmo vôo de volta... Quando estiver em casa, no Brasil, escrevo, dando um relato do resto da viagem. Se tiver inspiração, e não estiver com sono, escrevo um pouco durante o vôo. Até mais tarde. o O o Estou aqui de volta. São 14h, já horário do Brasil – 16 h, horário de Lisboa. Já “aperitivamos”, como diz um sobrinho meu (o Paulo Humberto, que, aliás, se casou durante a nossa viagem), já almoçamos, já “sobremesamos” (se posso inovar), e já dormimos – eu mais do que a Sueli. A saída do vôo de Lisboa atrasou quase uma hora – esperando um passageiro que, aparentemente, havia feito checkin para embarque (embarcando sua mala) mas não apareceu, ele próprio, para embarcar. Como pode ser que na mala houvesse uma bomba, esperaram um pouco, e, como ele não apareceu, removeram a mala dele. Não é a primeira vez que me acontece algo assim – mas a primeira foi pior. Foi em 1981, e eu estava indo de Bowling Green, Ohio, onde havia passado o verão como professor visitante, dando um curso de Educação Comparada, com foco na América Latina, para Tenerife, nas Canárias – via, naturalmente, Madrid. Havia um enorme congresso em Tenerife, e a Ibéria, para acomodar a alta demanda de passageiros, “clonou” o meu vôo, que passou a ser dois, com o mesmo número – só que um era o A e o outro era B. Como saíam os dois na mesma hora com o mesmo destino, a brilhante Ibéria misturou as bagagens dos passageiros de A e de B. O vôo B, que era aquele em que eu não me encotrava, estando completo, chegando a hora da partida, partiu. No nosso vôo faltava um passageiro – e ele havia, como o de hoje, embarcado uma mala. Naquela época os sistemas não eram informatizados como são hoje. Hoje as etiquetas que vão nas alças das malas têm códigos de barras (algumas, mais modernas, têm até um chip), e, no papel, estão registrados o nome do passaeiro, o o código de reserva, e tudo o mais que é necessário para que a bagagem seja identificada e roteada por máquinas. Naquela época não. Colocavam um “papelinho” (como gostam de dizer os portugueses) na mala, do qual removiam um canhoto, que lhe davam, e, no bilhete, anotavam 1/20, que queria dizer: embarcou uma mala de 20 kg. Só. Esqueci de dizer que em 1981 era o auge do terrorismo basco no Espanha. O aeroporto de Madrid não tinha sequer depósitos para malas, por receio de que algum terrorista colocasse neles uma mala com bomba. Nessas circunstâncias, a Ibéria esperou mais de uma hora pelo passageiro faltante. Quando ele não apareceu, moveram o avião para o canto mais distante da pista, fizeram com que nós todos descêssemos, removeram todas as malas, e cada passageiro teve de identificar as suas malas – que, uma vez identificadas, eram embarcadas de novo. Como, porém, a Ibéria havia misturado as malas, houve passageiro que não achou suas malas (pois elas haviam seguido no outro vôo) e houve malas que não foram identificadas (pois pertenciam a passageiros que haviam seguido no outro vôo). Quando todo mundo que estava no avião ou identificou suas malas ou concluiu que nenhuma das malas restantes era sua, todos reembarcamos e o avião seguiu, com quase três horas de atraso. As malas não identificadas ficaram para trás, em quarentena. Chegando em Tenerife, os passageiros do vôo anterior, cujas malas haviam ficado para trás, estavam esperando por elas – não haviam sido informados pela Ibéria de que suas malas só chegariam 24 horas depois (período considerado seguro para que, se houvesse uma bomba numa das malas, ela explodisse num local deserto do aeroporto de Madrid). Revolta generalizada, gritos, brigas, histeria... Hoje, exceto pelo atraso de cerca de 55 minutos, tudo aconteceu de forma tranqüila e civilizada. No almoço, a Entrada foi Salada da Estação com Mousse de Bacalhau e Requeijão. Como Prato Principal a Sueli comeu Bife de Vitela com Purê de Abóbora e Maçã (servido com Azeite de Limão) e eu comi Atum Alourado Servido com Batata de Caldeirada (servido com Azeite de Tomate Seco). Ambos tomamos um vinho tinto da região de Régua, no Douro, chamado Quinta Sá de Baixo, safra de 2003. Muito bom. Como sobremesa, a Sueli comeu algo chamada Torta Caramelizada de Laranja com Molho de Baunilha e eu comi uma Seleção de Queijos Portugueses, com Compota de Frutos Silvestres – em ambos os casos, servido com um Porto Doce da Quinta das Tecedeiras, safra de 2002. Antes de chegar a São Paulo vão servir um pequeno snack: Tortilha de Maça, Bolo de Cenoura, coisinhas assim. Parece tudo muito imponente, com esses nomes, mas, em se tratando de comida de avião, já comi melhor. Mas como não é pra comer no avião que a gente viaja, a gente come e não reclama. Esqueci-me de dizer que o procedimento de embarque do vôo para o Brasil, como o procedimento de chegada do vôo em que viemos, em 28 de Setembro, deixa muito a desejar. Por alguma razão que desconheço, embora o aeroporto tenha “fingers”, o avião não chegou até eles, nem na chegada, nem, hoje, na partida. Isso significa que os passageiros têm de tomar um ônibus (“autocarro”) para percorrer o longo trajeto do portão de embarque até o avião. Para não deixar os passageiros da Classe Executiva (a TAP não tem Primeira Classe) esperando no avião, enquanto os ônibus fazem várias viagens, eles são embarcados por último, não primeiro, como geralmente acontece. Eu, pessoalmente, esperar por esperar, prefiro esperar dentro do avião a esperar na sala de embarque – pelo menos já garanto meu espaço de bagagem, etc. Nada me irrita mais do que embarcar e verificar que o bagageiro em cima do meu assento já está abarrotado. Isso tem menor chance de acontecer na Classe Executiva, porque cada passageiro tem no mínimo o dobro do espaço de bagagem de mão, mas, believe me, acontece. Por isso sempre gosto de embarcar logo e garantir o meu espaço de bagagem em cima do meu assento. Sangue de mineiro também influi sobre isso, acredito. Uma vez tive de brigar na Executiva na United, porque, tendo sido um dos primeiros a entrar, coloquei minha bagagem (uma maleta pequena e uma maleta de computador) no local preferido. Alguém que chegou na última hora, teve dificuldade de achar lugar para suas bagagens (enormes). Chama o comissário de bordo. O que este faz? Pega minhas bagagens e move dois lugares para trás para acomodar as bagagens do atrasadinho. Protestei. Meu lugar estava na primeira fila da Executiva. Disse a ele que, se fosse mudar minhas bagagens, que as colocasse no bagageiro da última fila da Primeira Classe, em que ficavam à minha vista e à minha mão. Ganhei a batalha – mas ganhei também a irritação do comissário de bordo. No meio do vôo o chefe dos comissários veio me pedir desculpas e me deu um formulário para eu fazer uma reclamação. Fiz e recebi 200 dólares em bônus de viagem como compensação. Quem não chora, não mama. Minha filha Patrícia sabe disso – é genético. Os filmes disponíveis aqui na TAP também deixam a desejar. De filme, mesmo, não contando documentários, programas de entrevistas, desenhos, etc., só estão passando Piratas no Caribe, com o Johnny Depp – que acho um filme horrível. Continuei a ler meu livrinho sobre a União Européia. A Sueli assistiu a parte do filme, mas também detestou. Voltou a ler o Inés da Minha Alma, da Isabel Allende (que eu ainda não comecei seriamente a ler na minha versão no original – embora tenha lido por cima bons pedaços). Gostaria de comentar um pouco a questão da União Européia. Acho que a criação da União Européia foi uma decisão errada que ainda vai cobrar um preço alto dos europeus. Sou totalmente a favor do que se chamava Mercado Comum Europeu: o esforço para juntar diversos países em um mercado livre, com livre circulação de mercadorias, serviços e pessoas. Também não me oponho a que vários países se unam para cuidar, de maneira integrada e, presumivelmente, mais racional e barata, de sua defesa – como acontece com a OTAN. Mas criar uma união política é outra coisa – envolve criar uma nova esfera e burocracia governamental em cima de todas as já existentes. A tendência, já há bom tempo, tem sido buscar e conseguir autonomia política – não perder autonomia política para uma esfera política superior. Como se a ONU não fosse o bastante, criaram uma ONUzinha européia. Só a Comissão Européia, conforme diz o livro, já tem acima de 17 mil funcionários. O Conselho de Ministros passa de 2.500. O Parlamento Europeu, está chegando a 5 mil. A Corte de Justiça passa de 1.500 e a Corte de Auditores (Tribunal de Contas) passa de 600. As diversas agências, instituições de pesquisa, etc., têm por volta de 10 mil funcionários. Em suma: a burocracia da União Européia já possui acima de 35 mil funcionários – técnicos, administrativos e subalternos. Para considerar apenas os gastos com o Parlamento Europeu, que não função legislativa plena possui (pelo que os europeus provavelmente devem ser gratos), há, hoje, mais de 700 deputados. Eles todos moram em seus respectivos países. Não poderiam morar na sede do Parlamento, porque o Parlamento tem mais de uma sede... A sede principal, por exigência francesa, é em Strasbourg. Os deputados passam ali uma semana por mês em sessões plenárias ordinárias. Como não têm casa, precisam ficar em hotel. Como não são de ferro, precisam de um excelente hotel. Além disso, precisam comer em bons restaurantes (Brasília que o diga). Por fim, nenhum deputado consegue viver sem suas secretárias e seus assistentes e assessores por perto. Sessões plenárias extraordinárias, bem como reuniões de comissões e sub-comissões, são, entretanto, realizadas em Bruxelas – que é a sede da Comissão Européia. E o Secretariado do Parlamento (os funcionários da casa, vamos chamá-los assim) estão em Luxemburgo – mas boa parte deles não fica em Luxemburgo, mas acompanha as sessões do Parlamento e as reuniões das comissões e sub-comissões. Já imaginaram o gasto que isso acarreta com viagem, hospedagem, alimentação, comunicação? Acrescente-se a essa enorme – e cara – complicação topo-logística, o problema da linguagem. Hoje são 20 as línguas oficiais da União Européia. Com a entrada da Bulgária e da România, prevista para 2007, aumentarão para 22. Todos os documentos – não só do Parlamento, mas de toda a União Européia – precisam ser traduzidos para todas essas línguas e as reuniões precisam ter interpretação simultânea para todas elas. Complicado, não? E caro. Outro problema. Os deputados do Parlamento Europeu devem trabalhar em tempo integral. Passam, em princípio, uma semana por mês (menos Agosto, mês de férias) em sessões plenárias em Strasbourg, duas semanas em sessões extraordinárias ou em reuniões de comissões ou sub-comissões em Bruxelas, e a quarta semana passam em contatos “partidários” ou com os seus “eleitores”, no seu país de origem. Por que não? Eles, como os deputados brasileiros, também são filhos de Deus. Todos, supostamente, trabalham o mesmo. No entanto, o salário que recebem é idêntico ao que recebem os deputados federais de seus países – o que quer dizer, extremamente diferente. Um deputado da Eslovênia deve receber bem menos do que um deputado que mora em Paris, não é verdade? Não é de surpreender que o Parlamento já tenha tentado, mais de uma vez, a primeira em 2004, padronizar os salários (como padronizadas são os jetons, as verbas de viagem, comunicações, pesquisa, gabinete, etc.). Mas o Conselho de Ministros vetou. Alguém acha que eles vão desistir? Estou falando apenas de um órgão da União Européia, o Parlamento, e apenas de problemas logísticos e financeiros. Mas há os problemas políticos, que vão ficar cada vez mais sérios à medida que os países da Europa Central e da Europa Oriental se sintam confiantes o suficiente para levantar a cabeça e protestar... Por exemplo, até o Tratado de Nice, que entrou em vigência em 2002, os cinco maiores países da União Européia (maiores em população: Alemanha, Reino Unido, França, Itália e Espanha) tinham dois “comissários” na Comissão Européia – o restante tinha apenas um. O Tratado de Nice, já sob pressão dos países pequenos, removou esse poder adicional dos países maiores. No Conselho de Ministros (em que cada país membro tem um representante), e que é o real corpo legislativo da União Européia, costumava exigir-se unanimidade para aprovação de qualquer medida. A França e o Reino Unido vetaram várias medidas importantes, com base em seus interesses. Na verdade, antes de o Reino Unido fazer parte da União Européia, a França, por decisão pessoal de De Gaulle, duas vezes vetou o seu ingresso – por considerá-la mais aliada com os Estados Unidos do que com o resto da Europa. Com o crescimento do número de países, torna-se inviável exigir ou esperar unanimidade em qualquer coisa. O sistema de votação agora é predominantemente a maioria qualificada – em que o voto de cada Ministro tem um respectivo peso, determinado em função da população do país que ele representa, reservando-se a unanimidade apenas para questões realmente importantes (como, por exemplo, o país sede dos vários órgãos... – dá vontade de rir). O Tratado de Nice fixou os seguintes pesos para os votos dos respectivos países: Alemanha, Reino Unido, França e Itália: 29; Espanha e Polônia, 27; România (quando entrar), 14; Holanda, 13; Grécia, República Tcheca, Bélgica, Hungria, e Portugal, 12; Suécia, Áustria e (quando entrar) Bulgária, 10; Eslováquia, Dinamarca, Finlândia, Irlanda, e Lituânia, 7; Látvia, Eslovênia, Estônia, Chipre (parte grega), e Luxemburgo, 4; Malta, 3. Para alguns atos do Conselho, exige-se o mínimo de 258 votos, desde que tenham vindo da maioria dos países da União; para outros atos, exige-se o mínimo de 258 votos, desde que tenham vindo de pelo menos dois terços dos países da União; e assim vai. Eu pergunto: tem jeiro de isso funcionar a longo prazo? Além disso, há os países que se consideram donos da União Européia – a França, em especial. Quando os últimos dez países estavam para ser admitidos – todos eles da Europa Central e do Leste – surgiu a questão da guerra do Afganistão e, logo depois, do Iraque. A maior parte deles apoiou os Estados Unidos e até mesmo forneceu soldados. A França, como se sabe, ficou contra. Jacques Chirac, presidente da França, resolveu passar uma descompostura verbal nos novos países – dizendo algo que parecia sugerir que, se eles fossem se alinhar com os Estados Unidos, seria bom que nem entrassem na União Européia. Recebeu uma saraivada de críticas dos chefes de governo e líderes políticos desses países. A França, mais uma vez, achou que podia mandar na União Européia – como no tempo de De Gaulle, em que fez o que quis. (Além de vetar a entrada do Reino Unido duas vezes, a França, numa ocasião, se viu, numa votação que não exigia unanimidade, prestes a ser o único país a votar contra uma medida. O que fez? Removeu sua representação da União Européia e assim bloqueou, por um bom tempo, as reuniões em que coisas importantes precisavam ser aprovadas por unanimidade. Tudo isso está no livro.) O Reino Unido, por sua vez, gosta de ser prima donna. Custou para decidir solicitar ingresso na União Européia. Quando solicitou, foi duas vezes rejeitado pelo veto de De Gaulle. Aprendeu a lição: entrou, veta tudo que contraria seus interesses, e entrou assim pela metade: não adotou o Euro e, pelo jeito, não vai adotá-lo tão cedo. (Alguém imagina o Reino Unido abandonando a Libra Esterlina?) Estando numa ilha, não no continente europeu, o Reino Unido se sente um pouco europeu, mas, em parte, um continente próprio. Além disso, tem seus vínculos históricos, culturais, lingüísticos e estratégicos com os Estados Unidos, dos quais não vai abrir mão tão facilmente. Mas as surpresas vêm de onde menos se esperam: o tratado que aprovaria a Constituição Européia, que exige aprovação unânime para entrar em vigor, foi rejeitado primeiro pela França, depois pela Holanda... O Reino Unido, diante disso, se julgou no direito de nem submetê-lo à apreciação... Se se exige unanimidade, e ela já foi quebrada pela França, why bother? Posso estar aqui sendo extremamente cético. Mas acho, como disse, que a época é de dar autonomia política às regiões – na Espanha, por exemplo, a região dos catalães, dos bascos... Na própria França há regiões que desejariam mais autonomia. Todos vimos o que aconteceu nos Bálcans. Durante a Copa do Mundo, a Sérbia e o Montenegro, que eram um país só, com participação na Copa, se dividiram em dois países. Em Portugal, a região de Trás-os-Montes tem muito em comum com a Galícia – cuja língua é mais parecida com o português do que com o espanhol – que, na realidade, é o castelhano, a língua de Castela imposta às demais regiões... Só faria sentido criar a União Européia como a união política (que já é, como Presidente do Executivo, Parlamento, Poder Judiciário, etc.), se os estados nacionais, especialmente os maiores, cometessem eutanásia, desaparecendo do mapa e transferindo seus poderes, em parte para as regiões, e o que falta para que ela seja um Estados Unidos da Europa, para a União Européia. O Brasil, que tem uma história bastante longa, como estado nacional, está na hora de transferir poderes (políticos, legislativos, tributários, financeiros, administrativos, judiciais) do governo central para os níveis estaduais e até mesmo os níveis regionais (infra-estaduais), tornando-se apenas um grande mercado comum, ao qual podem ser agregados outros países da América do Sul ou mesmo da América Latina. Que não se invente criar uma Comissão Sul-americana, muito menos uma Comissão Latino-americana... Já existe em São Paulo uma organização chamada Parlamento Latinoamericano, criado pelo Quércia, quando foi governador... Mas é só nome, não tem realidade de parlamento – felizmente. Divaguei demais. Voltemos à realidade. São 16h, hora do Brasil. Em cerca de duas horas estaremos aterrisando. Nossos filhos Rodrigo e Patrícia devem estar a nos esperar (NB) em Guarulhos – e, talvez, a minha cunhada Fernanda (irmã da Sueli), também. Provavelmente iremos para Campinas pela Fernão Dias / Dom Pedro para evitar o tráfego na marginal do Tietê. (O tráfego na Bandeirantes às sextas-feiras depois das seis é quase igual ao tráfego nas marginais de São Paulo)> Por falar em marginal, li hoje na Folha que estão planejando cobrar pedágio no Rodoanel. Nem terminaram a coisa ainda e já contemplam cobrar pedágio para poder construir o resto. Em geral não sou contra a cobrança de pedágios em estradas. Mas, no caso do Rodoanel, como bem aponta o editorial da Folha, a medida parece “self-defeating”. A finalidade maior do Rodoanel é desafogar as marginais. Se, para trafegar no Rodoanel será preciso pagar pedágio, os caminhoneiros, que causam a maior parte dos problemas nas marginais, vão preferir continuar trafegando pelas marginais. A MENOS QUE se cobre pedágio também nas marginais... E aqui vou eu novamente. Este é o último artigo que vou escrever como parte da viagem, neste blog. Pode ser que ainda complete este artigo depois de chegar em Campinas. Mas a partir de amanhã, voltarei a escrever no meu “Espaço Liberal”, no endereço http://ec.spaces.live.com – embora pretenda continuar a acrescentar fotos e fazer revisões, correções e mesmo adendos nas matéria já publicadas aqui. Diverti-me muito escrevendo esse Díario de Bordo. E ao mesmo tempo deixei registrada a nossa viagem. Agradeço aos que nos acompanharam. o O o São 23h, já estamos em casa. Chegamos direitinho. Só foram a minha filha e a minha cunhada nos esperar. Vim dirigindo a Zafira da minha filha pela Fernão Dias e pela Dom Pedro. Achamos tudo certo em casa, felizmente. Viajar é bom – mas estar em casa também é muito bom. Em Lisboa, no ar e em Campinas, 17 de novembro de 2006 November 16 Oitavo - e último - dia em LisboaHoje, quinta-feira, 16 de novembro, último dia inteiro aqui em Portugal, vagabundeamos. Levantamo-nos tarde, fomos ao aeroporto, para ter certeza de que não erraremos o caminho amanhã cedo, para verificar onde teremos de descarregar as malas para simplificar o embarque, para descobrir o local exato em que deveremos devolver o carro, e para procurar um posto de gasolina na vizinha, a fim de que possamos encher o tanque, para devolver o carro com o tanque cheio... (A propósito, um litro de gasolina, da mais barata, está custando aqui em Portugal cerca de 1,20 Euros por litro). Falando em carro, dirigimos quase 3 mil quilômetros com o nosso carrinho – só aqui em Portugal. Gostei dele. Tem uma série de características interessantes. O computador de bordo funciona que é uma beleza. Há dois controles separados de ar condicionado, um para o motorista, outro para o passageiro. Você pode fixar a temperatura desejada do seu lado, e o ar que sai do seu lado esfria ou esquenta para manter a temperatura. O CD Player é bom, toca mp3, mostra os nomes das músicas na tela, etc. Tudo muito eficiente. E corre bem, apesar de motor ser 1.4. Nas estradas daqui, é só bobear e a velocidade do carrinho chega a 150 km/h. Seguindo no mesmo assunto, o valor do pedágio entre o Porto e Lisboa foi 18,45 Euros (mais ou menos 300 km). Carinho. Mas a estrada é excelente. Em todos os dias em que estamos aqui, só vi fiscalização duas vezes. E não vi radares. Depois do aeroporto, onde tomamos café, fomos ao Shopping Colombo, nos despedir... Aproveitei e comprei um uniforme da Seleção Portuguesa (camiseta, calção e meias) para o meu neto Gabriel... Durante a Copa ele havia dito que, se o Brasil não ganhasse, iria torcer para Portugal... Tomamos um lanche no shopping. Nada pesado. Eu estava com o estômago meio ruim: acho que foi o bacalhau no repolho (chamado de couve no menu em Português) do restaurante do hotel ontem... Voltando para o hotel, chochilamos, e estamos dando uma última arrumada na bagagem. Vou ficar aliviado a hora que chegar em casa e me vir livre dessas malas. Mas será por pouco tempo. Chego dia 18 e no dia 26 saio para a Malásia e para a Índia, por 15 dias. Vou pela Lufthansa até Munique e de lá, via Thai Airlines, para Bangkok e Kuala Lumpur. A volta está prevista de Kuala Lumpur para Londres pela Malaysian Airlines e de Londres para São Paulo pela British Airways. Além dessa viagem, em Fevereiro deverei estar em Cambodia e em Maio deverei abrir mais uma vez (a quarta) o congresso de Taiwan sobre Tecnologia e Educação. Gosto de Taiwan – e o povo de lá pelo jeito gostou das minhas falas. Daqui a pouco vamos sair para comer alguma coisa. Amanhã nosso vôo sai às 9h40 e chega em São Paulo às 17h50. Bela hora para chegar a São Paulo numa sexta-feira... Em Lisboa, 16 de novembro de 2006 Viagem Porto - Lisboa e sétimo dia em LisboaDia 15 de Novembro, quarta-feira, feriado no Brasil. Estamos de volta a Lisboa – e o tempo resolveu piorar. Chova lá fora, venta, faz frio, e há uma neblina generalizada que dificulta a vista. Saímos do Porto às 8h da manhã e ao meio-dia estávamos aqui, no mesmo hotel em que ficamos os seis primeiros dias, de 1 a 7 de novembro – mas num quarto diferente, que dá para os arcos. A vista, portanto, é bem mais bonita – se a gente pudesse realmente vê-la Do Porto até aqui são 300 e poucos quilômetros. Cerca de 120 do Porto até Coimbra, um pouco mais de 180 de Coimbra até aqui. Fizemos em quatro horas, apesar de estarmos dirigindo a 130-140 km/h, porque paramos para tomar café, parei para colocar gasolina, paramos para ir ao banheiro, e paramos em Óbidos para tentar ver o castelo – mas acabamos nem entrando, porque era proibido entrar de carro na partezinha velha da cidade (exceto no caso de residentes) e, portanto, era necessário deixar o carro fora da cidade, num estacionamento, pago e não vigiado (você paga nas maquininhas) – e estávamos com nossas malas todas no carro. Assim, tiramos umas fotos da muralha, de longe, e that was that. Achamos nosso caminho para o hotel em Lisboa com apenas uma perguntada... O rapaz que nos ajudou deu instruções precisas e, dois quilômetros depois, reconhecemos o local em que estávamos e nos sentimos em casa. Esse Hotel Mercure, que é muito bom, tem uma idiossincrasia: só há Internet nos quartos altos – que são quartos para fumantes (“quartos fumadores”, como eles os designam). Da vez anterior, ficamos no nono andar, o último, num quarto fumador que, entretanto, não tinha nenhum cheiro de tabaco. Hoje nos deram um quarto no oitava andar e, quando abrimos a porta, sentimos o cheiro de cigarro. Desci, pedi outro, e o que nos deram, no mesmo andar, não tinha cheiro nenhum de cigarro. Estava lendo o livrinho do Hotel Mercure, que afirma que a rede possui 750 hotéis em 49 países no mundo. Dei uma olhada geral e me surpreendi com o fato de que só em Paris (não na “Grande Paris”, na “pequena”, eles possuem 53 hotéis. Achei curioso que tenham quatorze hotéis no Brasil: Belo Horizonte, Brasília, Campinas, Curitiba (2), Gramado, Joinville, Salvador, Santo André, São José dos Campos, São Paulo (4). Além disso, possuem no Brasil a cadeia de flats Parthenon, que possui 58 flats (25 em São Paulo apenas). Em compensação, no México, na Argentina, no Chile a cadeia Mercure / Pathenon não possui nem hotéis nem flats (em Zimbabwe, na África, possui dois...). Na verdade, nas Américas, só possuem os quatorze hotéis e 58 flats no Brasil, um hotel em Cuba, um na República Dominicana, um no Equador e um na Guatemala. Nada mais: nem mesmo nos Estados Unidos e no Canadá. Fiquei tentando entender como esses empresários tomam decisões, que os levam a colocar, só desta rede Mercure (não contando as outras redes: Novotel, Sofitel, Ibis, Formule 1, etc.), 72 estabelecimentos no Brasil, entre hotéis e flats Parthenon, e nenhum no México, na Argentina, no Chile... Em Portugal há seis, três dos quais na região do Porto – na Espanha, apenas um, em San Sebastian. Por quê? O que está por trás dessas decisões envolvendo milhões de euros / dólares? Gostaria de entender a lógica, o raciocínio por trás. Obviamente está dando certo. Mas por quê? Se eu soubesse a resposta, talvez estivesse construindo hotéis em vez de estar aqui escrevendo blogs, não é verdade? Almoçamos aqui no hotel. A Sueli comeu filé e eu comi bacalhau na cama de couve. Pelo menos era isso que dizia o menu em Português. Quando veio o bacalhau, não achei couve alguma – mas havia repolho. Peguei o menu de novo e nele, no texto em Inglês, se dizia “cabbage”, que é repolho... Acho que o chef só lê Inglês... A minha comida estava passável – não mais do que isso. A Sueli gostou da comida dela. O Hotel Mercure aqui em Portugal tem uma Carta de Vinhos muito bem selecionada e bastante acessível. No restaurante é possível comprar bons vinhos – todos portugueses – por até 7,50 Euros a garrafa. Outra curiosidade. Na República Tcheca a quantidade de vinho é geralmente mencionada em decilitros: uma garrafa é 7,5 decilitros; uma taça, 2 (às vezes 2,1) decilitros. Na Áustria e na Alemanha, a quantidade é geralmente mencionada em centilitros: uma garrafa é 75 centilitros; uma taça, 20 (ou 21) centilitros. Aqui em Portugal, como no Brasil, em geral se usa os mililitros: 750, 200 (210), etc. Não vi ninguém usando litros: 0,75 litros, 0,20 (0,21) litros, etc. Fica de novo a pergunta: Por quê? Estávamos pretendendo sair e ir até o Shopping Colombo. Mas com a chuva, e seu impacto no trânsito, não sei se vamos, não. Depois eu conto. o O o Não fomos... Preferimos ficar aqui, fuçando na Internet, lendo, descansando um pouco. Divertir-se também cansa... O Brasil ganhou da Suiça com por um magro 2x1, com um gol do Kaká, e Portugal ganhou do Kazakistão, por 3x0, com um belíssimo gol do Cristiano Ronaldo. E, na entrevista, o Felipão mostrou que já adquiriu um sotaquinho lusitano... Em Lisboa, 15 de novembro de 2006 November 14 Oitavo dia no Porto: sem sair da cidadeHoje, 14/11, terça-feira, é o nosso último dia no Porto. Amanhã voltaremos para Lisboa, de onde sairemos para o Brasil na sexta-feira, dia 17/11. A viagem está chegando ao fim. Hoje cedo rodamos aqui por perto do hotel mesmo, depois de tomar café no Bella Roma. Andamos um pouco e, quando a Fnac abriu, às 10, entramos lá – na realidade, eu entrei: a Sueli foi primeiro à C&A daqui, que fica em cima da Fnac (é uma combinação estranha: a C&A fica no andar 0 e superiores e a Fnac fica também no andar 0 e nos andares -1 e -2 do mesmo prédio. O andar 0 tem um estranho compartilhamento – feito ainda mais estranho porque a Fnac fecha bem depois da C&A...). Depois a Sueli me encontrou na Fnac. Eu, para variar, comprei mais um livro: uma história da União Européia, chamado “Guide to the European Union: The Definitive Guide to all Aspects of the EU”, de Dick Leonard (9ª edição, publicado pelo The Economist). Este deve ser o quarto “último livro” que disse que iria comprar aqui... Felizmente agora tenho uma boa história de Portugal e uma boa história da União Européia. Ambas chegam até perto do final de 2005. Depois voltamos para o quarto, guardamos as coisas, verificamos e-mail, etc. e saímos para conhecer a foz do Douro. Do lado direito do rio a foz é um lugar conhecido como “Foz”... Do lado esquerdo a foz é um lugar chamado de Afurada. A recepcionista nos dissuadiu de ir de carro por causa do problema de estacionamento. Assim tomamos um taxi que por 4 Euros e pouquinho nos levou até lá. Andamos um bocado – uns 3 km, é minha estimativa – do lado direito do rio (a Foz). Fomos até um antigo castelo e vimos vários imóveis e jardins bonitos. Mas o lugar é muito pouco explorado. Poucos bares e restaurantes. A julgar pelo tipo de comércio disponível, não parece ser um lugar badalado. Andamos tanto que tomamos o ônibus de volta para o local onde o taxi nos havia deixado, pois ali iríamos tomar uma barca para o outro lado do rio (a Afurada). A barca deu um certo medo – velha, de madeira, com só dois passageiros além de nós. Pagamos 1 Euro pela travessia e chegamos do outro lado. Como já era tarde, resolvemos almoçar. Encontramos o restaurante que a recepcionista do hotel nos havia recomendado – chamado “A Margem”... Apesar do estranho nome, a comida era boa e o preço razoável. Só fiquei meio p... da vida com o fato de que pedimos, para acompanhar o prato principal, uma salada de alface e tomate, e cobraram 2 Euros pelo alface e 2,50 Euros pelo tomate – apesar de os dois terem vindos misturados numa mesma travessa. Por pouco não reclamei. Decidi, no entanto, não me estressar. Saímos do restaurante e vimos uma cena difícil de acreditar: um lavadouro público de roupas ao lado do rio. Começamos ver várias mulheres carregando trouxas e cestos de roupas na cabeça, outras levando roupas e até tapetes para a área. Fomos até lá, onde havia dezenas de longos varais estendidos à margem do rio. Havia um prédio pequeno com vários tanques, dispostos num quadrado, e um grande reservatório de água no meio. Na mureta externa de pedras havia vários tapetes secando. Lembrei-me, imediatamente, que, na minha infância, havia uma música, até bastante popular, chamada “Lavadeiras de Portugal”. A Sueli não a conhecia. [Depois de voltar ao hotel, procurei no Google e encontrei inúmeras referências não só às próprias como à música em questão. Pudemos ouvir até um sample da música, orquestrada. E ficamos sabendo que há um filme e uma peça com o mesmo nome.] Agora vou ter de achar um CD que contenha essa música... Depois de passar pelas lavadeiras, subimos o morro íngreme, por uma ruazinha estreita e sinuosa, de pedras, para chegar ao Arrábida Shopping. Chegamos lá em petição de miséria. Andamos um pouco, fizemos umas comprinhas, e voltamos de taxi para o hotel. Chegamos ao fim de nossa estadia aqui no Porto. Gostamos muito da cidade, tanto eu como a Sueli. Eu, pessoalmente, gostei bem mais daqui do que de Lisboa. Cidades, já disse em artigo anterior, têm personalidade, têm alma – e a do Porto é uma personalidade simpática, acolhedora, e uma alma gentil, doce, fácil de interagir. A gente pergunta uma coisa e as pessoas largam o que estão fazendo para responder e ajudar. Fazem desenhos, mapas, escrevem em “papelinhos” (como os chamam) dicas de lugares para visitar, de restaurantes onde comer. Nos restaurantes, os restaurantes tiram tempo para conversar com a gente, voltam para perguntar o tempo todo se a comida está boa, se não está faltando nada. Hoje no “A Margem” perguntamos ao garçon como chegar dali ao shopping e veio a moça que estava arrumando as mesas para o jantar, que prontamente chamou outra, que nos explicou direitinho como proceder. Senti-me, aqui, como me sinto numa cidade brasileira – numa cidade grande, velha e bonita, como Salvador ou São Luís. Só que aqui não tenho aquele medo constante de ser assaltado. A parte central da cidade é amigável, à noite: totalmente iluminada, com gente andando pelas praças e pelas ruas. O comércio no centro infelizmente fecha cedo – a vida comercial noturna foi transferida para os shoppings, e há vários deles aqui. Há, no centro, uma quantidade enorme de padarias, confeitarias, cafés, bares acolhedores – alguns com centenas de lugares. O lugar que escolhemos para tomar café, a confeitaria (o restaurante) Bella Roma, está sempre lotado por volta das 9h30 – 10h da manhã. Houve gente que vi lá todo dia, tomando café com leite, comendo um croissant com queijo ou com manteiga, ou então um “confeito” (afinal de contas, o local se chama de confeitaria...). Tudo é muito gostoso e relativamente barato. Como já disse, tomamos café (com confeito) aqui por cerca de metade do preço que pagamos em outros lugares – e por cerca de um quinto do preço que pagamos no centro de Paris, na Rue de Rivoli, ao lado do Louvre. Como a gente os reconhece pelo sotaque, eles também nos reconhecem imediatamente como brasileiros. Gostam de conversar. Muitos têm parentes no Brasil e dizem onde. Hoje, no taxi de volta do shopping para cá o motorista nos explicou que as pessoas nascidas no Porto são chamadas de Portuanos ou Tripeiros – e nos explicou a razão deste nome. Na verdade, deu duas teorias... Perguntou-nos quando voltaríamos para o Brasil, ao chegar ao hotel desceu, nos deu a mão, e desejou feliz viagem – e deu o número do taxi dele... Disse-nos, antes de partir, que se voltarmos ao Porto e precisarmos de taxi, é para chamá-lo – que se nos vir em outro taxi, que não o dele, vai ficar muito sentido. Achei bonito o gesto dele. Embora seja apenas retórica, é retórica com um significado, uma intenção de agradar, de ser gentil. Por essas e por outras fiquei gostando muito do Porto. A Sueli me perguntou hoje se eu pudesse escolhar morar numa cidade portuguesa, se eu escolheria o Porto. Tive vontade de dizer que sim, mas então me lembrei de Chaves... Como seria bonito ter um endereço postal “Eduardo Chaves, Chaves, PT”... Em virtude da contratação do domínio chaves.com.pt, já tenho um e-mail eduardo@chaves.com.pt ... Até chegarmos a Portugal, nomes de rios como Tejo, Douro, Tâmega, Mondego eram apenas nomes. Agora estão para sempre ligados às imagens das cidades de Lisboa, o Porto, Chaves, Coimbra... O termo “Trás-Montano” era virtualmente ininteligível. Agora cruzamos as montanhas atrás das quais ficam Chaves e Bragança. O termo “além-tejano” (“alentejano”) também não tinha concretude: aplica-se à região que, do ponto de vista dos costeiros, está além do rio Tejo. E a região do Algarves... Lembrava-me de que Dom João VI, quando no Brasil, promoveu o Brasil a reino unido de Portugal. Mas não foi só o Brasil. O nome do reino era “Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves”. Esse Algarves nunca significou nada, até agora. Aprende-se muito viajando. E, num caso como este, de volta a origens, o viajar mexe bastante com as emoções, com a sensibilidade... Se morasse aqui três meses, estaria, ao fim, falando como os portugueses – os portugueses que falam a norma culta (há gente mais simples que fala e eu tenho sérias dificuldades para entender). Há algumas pronúncias que certamente relutaria muito em adotar... Falar “crescher” para “crescer”, por exemplo, xiando o “c” com se fosse “sch” antes do “e” e do “i”... Ou falar “peís” para “país”... Ou “tambáin” para “também”... Mas, de resto, não teria grande dificuldades. Será que está no sangue? Amanhã nos levantaremos cedo e procuraremos cumprir em tempo tranqüilo os 300 km daqui até Lisboa. Hoje liguei para a TAP e reconfirmei nosso retorno. Espero que a bagunça dos controladores aéreos do Brasil não faça com que nosso vôo atrase a sua chegada: estamos com saudades dos filhos e dos netos. (Hoje o Gabriel muda de faixa no judô... Ante-ontem vimos o Marcelinho no Messenger, falando de tudo: sítio, galinha, vovô, Dudu, etc.). Voltaremos para o mesmo hotel em que já estivemos: o excelente Mercure José Malhoa. Lá a garagem felizmente é boa... Mas a suite daqui bateu todos os demais quartos que tivemos ao longo desta viagem. No Porto, 14 de novembro de 2006 Calúnia, difamação e injúriaTerminei meu artiguinho sobre racismo, aqui neste space, dizendo:
"Uma última observação. Se eu acusar alguém de ser racista (ou ladrão, corruptor de menores, etc.), e, no processo, conseguir provar, com evidências, testemunhos ou argumentos, que a acusação é correta e se justifica, eu não poderei ser acusado de crime de injúria ou difamação."
Um comentarista anônimo (ao qual eu aqui agradeço) teceu o seguinte comentário a essa observação -- na verdade, é uma correção, não um comentário.
Diz ele que a chamada "exceção de verdade" -- se eu provo que o que eu disse é verdade, não posso ser acusado de calúnia, difamação ou injúria por tê-lo dito-- a "exceção de verdade" só cabe no caso de calúnia, não no caso de difamação e injúria. O comentarista esclarece (o exemplo é dele): se A afirma que B é corno, e B processa A por difamação e injúria, A é punível, ainda que B seja verdade que B, de fato, é corno. Ele faz uma ressalva. No caso de difamação e injúria, esclarece, a exceção de verdade somente se admite se o ofendido é funcionário público e a ofensa é relativa ao exercício de suas funções. Meu entendimento dessa ressalva é o seguinte. Nessa hipótese, se A afirma que B, um funcionário público, é ladrão, pois rouba no exercício de suas funções, se B processa A por difamação e injúria, mas, no processo, A prova que B de fato é ladrão no exercício do cargo, A não seria punível -- a exceção de verdade se aplica neste caso, porque B é funcionário público e a ofensa é relativa ao exercício de suas funções. Voltando ao caso de calúnia. Refletindo sobre a questão, imagino que caluniar é dizer algo não só ruim mas falso acerca de outrem -- e é por isso que a exceção de verdade se aplica aqui. Se A diz algo ruim acerca de B, e B processa A por calúnia (que implicaria que A teria dito uma falsidade a seu respeito), mas A prova, no processo, a veracidade do que disse, A provou, nesse caso, que não caluniou. Difamação e injúria, por outro lado, podem acontecer mesmo quando A afirma acerca de B algo que é verdadeiro, mas que afeta a fama (reputação) de B e lhe causa injúria (como no exemplo dado pelo comentarista: o caso do corno). Preciso estudar mais essas coisas... São mais complicadas do que eu inicialmente imaginei. De imediato me surge-me a questão: se A afirma em público que B é corno, e é processado por B por difamação e injúria, e, no processo, A prova não só que o que disse é verdadeiro, mas também é público e notório, conhecido de todo mundo, cabe a condenação por difamação e injúria? Pode A difamar alguém que já tem pública e notória má fama? [Procurando na Internet encontrei um site (ABUSAR.ORG - http://www.abusar.org/manual_de_sobrevivencia_na_selva.html) em que há um artigo de em que se esclarecem algumas dessas coisas. Cito: "Os tipos de responsabilidade jurídica [Fim da citação] Os autores da passagem citada acima são Túlio Lima Vianna (professor de Direito Penal da PUC-MG, Doutorando [UFPR], Mestre [UFMG] em Direito e Editor do site www.tuliovianna.org) e Cynthia Semíramis Vianna (Mestre em Direito [PUC-MG] e Editora do site www.direitoinformatico.org). A eles o devido crédito. No Porto, 14 de novembro de 2006 Sétimo dia no Porto: viagem a CoimbraDeixei para ir a Coimbra -- terra natal de seis reis de Portugal, segundo me informa meu livro-guia -- hoje, segunda-feira, 13/11, porque queria ir à cidade num dia em que houvesse alunos circulando pela universidade. Na realidade, a única coisa que me interessava ver em Coimbra era a universidade, criada em 1290 (originalmente em Lisboa, posteriormente, em 1537, transferida para Coimbra) – mais de dois séculos antes de o Brasil ser descoberto e mais de seiscentos e quarenta anos antes de ser criada a primeira universidade brasileira. Coimbra fica mais ou menos 100 km ao sul do Porto – e cerca de 200 km ao norte de Lisboa. Pegamos a auto-estrada A1 e fomos. O pedágio ficou em 6 Euros para os 100 km. Carinho, mas vale a pena: a estrada é excelente. A velocidade máxima é 120 km/hora, mas quase todo mundo dirige a 140, 150 km/hora. Às vezes você está a 140 km/h e passa uma Ferrari vermelha por você que deve estar no mínimo a 180 km/h – não dá nem pra ver se é o Schumacher dirigindo... Não vi nenhuma fiscalização de velocidade nas estradas. Coimbra é uma cidade muito bonita, tanto a parte velha como a parte nova (em que há um lindo shopping, no qual almoçamos – mas mais sobre isso depois). Perto da universidade, andamos um pouco pela Praça da República e pelo Parque de Santa Cruz (também chamado de Parque da Sereia, pela que consta). Seguimos as placas na direção da universidade, estacionamos por perto, e pegamos a rua que leva à universidade – e que termina num conjunto de 125 degraus (cinco conjuntos de 25) que quase nos deixou sem fôlego. Lá em cima, tudo é muito bonito – e velho... Talvez devesse ter dito: tudo é muito velho – e bonito, mas prefiro deixar como disse. Fiquei desapontado de ver aqueles prédios magníficos todos cheios de grafiti e com anúncios, propagandas, etc. desrespeitosamente pregados neles. Andamos por ali. Tentamos entrar no Museu Acadêmico, mas estava fechado para almoço. Mesmo assim vimos alguns belos azulejos pelos corredores e pelas escadas. (Não comentei isso antes, mas boa parte do comércio e dos serviços, fora dos shoppings, fecha aqui entre 12h30/13h e 14h30/15h. Até os benditos castelos fecham. Em Chaves tivemos de apressar nossa visita da Torre de Menagem, onde fica o Museu Militar, porque estava chegando perto de 12h30. Em Guimarães, o simpático senhor que nos admitiu à Torre de Menagem, mediante o pagamento de 1,50 Euros por pessoa, nos advertiu que teríamos de sair até 12h15, porque ele iria embora e iria trancar a torre...). Na Universidade de Coimbra visitamos o Largo Dom Dinis, com a estátua do fundador da Universidade (com coisas coladas na base), passamos por algumas faculdades e fomos para o lindo Pátio das Escolas, que é o coração da universidade e onde fica a Faculdade de Direito e a Biblioteca Joanina (nomeada em homenagem ao seu patrocinador, Dom João V), e onde encontramos umas meninas brasileiras do Rio Grande do Sul (uma das quais havia perdido um agasalho). Dali se tem uma bela vista da cidade, especialmente do Rio Mondego e do Seminário. Passamos, depois, pelo Jardim Botânico, que fica atrás dos magníficos arcos (Aqueduto de São Sebastião) que são a marca registrada da UC (Universidade de Coimbra). Não estávamos com muita disposição de descer a pé até a outra parte do centrinho histórico, que fica atrás da universidade. A canseira da escadaria de entrada nos deixou meio desanimados... Assim pegamos o carro, rodamos um pouco pela cidade, e fomos almoçar no shopping mais recente de Coimbra, lá pelas 14h30. (Há dois, o Coimbrashopping e este, ao qual fomos). O Shopping de Coimbra, oficialmente chamado de Centro Comercial Dolce Vita de Coimbra é um belo shopping, moderno (inaugurado faz um ano e pouco). Fuçando na Internet encontrei a informação de que esse shopping, que tem 119 lojas em cerca de 40 mil m2, foi premiado, recentemente, com dois títulos importantes: Prêmio MIPIM de Melhor Centro Comercial do Mundo e Prêmio ICSS de Melhor Centro Comercial Europeu de Média Dimensão. [Vide http://pt.wikipedia.org/wiki/Centro_comercial_Dolce_Vita_de_Coimbra e http://pt.wikipedia.org/wiki/Shopping_center. O site do shopping está em http://www.dolcevita.pt. Há magnífica fotos, em 360 graus, do shopping no seguinte site: http://www.carloschegado.com/amorim/dolce_vita_coimbra/index.html] Achamos no Dolce Vita uma excelente churrascaria argentina (da rede "Siga la Vaca" -- vide http://www.sigalavaca.pt/), aparentemente, no caso dessa franquia específica, administrada por brasileiros, if you can believe it. A comida estava excelente e o preço foi bom (para padrões europeus). A carne (de vaca) argentina continua muito boa. Voltamos de lá, pegando inicialmente as estradinhas secundárias. Mas o tráfego não fluía. Por isso voltamos para a bendida A1, onde a gente pode correr a 140 km/hora. Resolvemos pegar a saída usada ontem, da Ponte do Freixo, pois as orientações estavam frescas na minha memória. Pois não é que me perdi de novo? Passei batido por uma plaquinha de “Centro” e, depois disso, foi caos – até que, uns 20 minutos mais tarde, vimos outra plaquinha indicando “Centro” – e, logo depois, surgida assim como por milagre da Virgem, uma outra indicando “Hotel Mercure Batalha”. O nosso. Ainda não falei do estacionamento do hotel. Desde o dia 10 o estamos usando, em vez do Estacionamento Ibéria, fora do hotel, e conveniado. Só que o estacionamento do hotel, aqui, diferentemente do que aconteceu em Lisboa, também é fora do hotel. Você chega, tem de pedir para eles abrirem a porta (não há ninguém operando esses serviços in loco), e estaciona você mesmo o carro (nada de valet parking). Acontece que, num espaço em que, a meu ver, caberiam, confortavelmente, seis carros, talvez oito, há dez vagas. E o caminho, estreitíssimo, que leva lá, é usado para estacionamento de mais três carros, grandes, que não conseguem passar pela portinha, em curva, que leva ao estacionamento interno. Acreditem-me: entrar e sair do estacionamento aqui é algo para o qual você precisa se preparar com técnicas de relaxamento, porque é estressante. Meu carro passa a cerca de 2 cm de cada lado da parede: qualquer bobeada, eu dou uma raspada. Felizmente, nada aconteceu até agora, mas fico estressado. Ontem o stress do caminho errado e do estacionamento foi tanto que tive de tomar uma dose de Macieira para relaxar... No Porto, 13 de novembro de 2006. Sexto dia no Porto: viagem a Viana do CasteloHoje, domingo, 12 de novembro, resolvemos ir até Viana do Castelo, no noroeste do país, e região (Neiva, Castelo do Neiva, etc.). Viana do Castelo fica num lugar magnífico, na foz do Rio Lima, que corta a cidade. É importante porto de pesca e estância de férias – embora o litoral não pareça ter muitas praias “habitáveis”: nas regiões que vimos, ao norte e ao sul da cidade, e dentro da própria cidade, que é banhada pelo mar e pelo rio, o litoral é composto de recifes e pedras, não tendo nenhuma praia de areia decente. Mas meu livro-guia me garante que há praias boas ao norte e ao sul da cidade: Praia de Cabedelo, Praia de Âncora. Chamou-nos a atenção, assim que chegamos a Viana do Castelo, um morro alto, com uma igreja. Fomos direto lá. Trata-se do Morro de Santa Luzia, ao norte da cidade (conectado com a cidade por estrada e por um funicular). A igreja, relativamente pequena, é bonita – segundo meu livro-guia, foi baseada em Sacré-Coeur de Paris, mas quem afirma isso não deve jamais ter visto Sacré-Coeur... A beleza da igreja está de fora: a vista, indescritivelmente linda, da cidade, do estuário do Rio Lima, do mar. Fabuloso. Só isso valeu a subida ao morro. A igreja, como o nome do morro indica, é dedicada a Santa Luzia, que, a Sueli me explicou, é a santa que protege os olhos – razão pela qual as imagens da santa a têm carregando um pratinho com dois olhos, coisa de extremo mau-gosto. Atrás da igreja há uma majestosa pousada – na verdade, um hotel muito luxuosa e cara (cinco simbolizinhos de Euro em nosso guia...): a Pousada de Santa Luzia. Não poderíamos deixar de ir lá. A vista da varanda é magnífica. Parece que a gente está naqueles hotéis nos Alpes suiços que aparecem em Sissi e o Seu Destino... Resolvemos nos sentar na varanda, pedir uma dose de vinho do Porto, que veio acompanhada de castanhas de caju (provavalmente brasileiras, muito boas), e simplesmente curtir a vista e o momento. Na frente da igreja, não resistimos e compramos uns bonequinhos de tricô que, segundo os inúmeros vendedores, são os símbolos da cidade: Manuel e Maria. Disse ao menino do qual compramos que iria rebatizá-los de Joaquim e Maria, para que ficassem com os nomes dos meus dois bisavôs e minhas duas bisavós do lado materno (os avós paternos e maternos de minha mãe). Achei-os feinhos, mas a Sueli se engraçou deles... Depois de descer do morro, rodamos um pouco pela cidade, tentando achar o acesso para uma bonita ponte de ferro. Parecia impossível. Depois descobrimos por quê: o acesso estava bloqueado para reformas na ponte. Fomos pela outra ponte, mais convencional. Ao sul da cidade visitamos um lugarejo bonitinho, chamado Amorosa, mas a praia ali também não era boa – embora a vista fosse bonita e houvesse vários condomínios que parecem indicar que há praias de areia acessíveis. Daí descemos dirigindo perto do litoral, mas sem conseguir ver o mar. Passamos por Castelo do Neiva (que não tem castelo) e paramos para almoçar em Neiva, num restaurante surpreendentemente grande para o local: o Alcazar. Ali comemos um excelente bacalhau na broa à moda antiga. (Eu disse que iria encher a cara de bacalhau). A seguir voltamos para o Porto, andando mais um pouco pelas estradinhas do litoral e, depois, pegando a rodovia maior, com pedágio (que eles aqui chamam de portagem). Para variar, perdemo-nos mais uma vez para entrar no Porto, tivemos de parar e perguntar, e acabamos descobrindo um novo caminho, através da Ponte do Freixo. Fazer turismo sem excursão, sem ônibus, e sem guia profissional é bem mais agradável – mas há momentos em que a gente se perde e se complica. O trânsito aqui no Porto não é fácil. A cidade é literalmente rodeada por uma estrada de alta velocidade, a VCI (que quer dizer Via de Cintura Interna, acreditem-me ou não), que na verdade é o que em São Paulo será o anel viário: todas as rodovias, para o sul, para o norte, e para o leste, desembocam nela (só que aqui ela está terminada – mas é bem menor do que será o Anel Viário em São Paulo). O problema é que não é muito claro, em determinados momentos, a sinalização. Se houvesse sempre uma placa indicando VCI, você saberia que, a tomar aquela direção, estaria circundando a cidade. Se errasse uma saída, poderia continuar em frente e dali uns vinte minutos ou meia-hora estaria de volta no mesmo lugar. Mas não: se você está na VCI, a sinalização diz, às vezes VCI, às vezes IC23 (aparentemente o número da VCI), e, também, o número das estradas que vão estar saindo da VCI (como A1, a estrada que vai para Coimbra e Lisboa) – tudo como se fosse uma direção só (que, na realidade, é). Só que, mais à frente, você continua a ver uma placa parecida, só que o VCI e o IC23 sumiram e só está sinalizado A1. Uma outra placa, menor, dá um outro nome, que parece ser de uma saída secundária, menor. Se você continuar na direção indicada por A1, se dá mal: dali a pouco vê a bendita cabine de portagem (pedágio) e está na A1, tendo deixado atrás a VCI. Para ter continuado na VCI, você teria de ter tomado aquela que parecia uma saída secundária, menor... Além do mais, eles não usam, aqui, uma convenção que é usada nos EUA: Oeste, Leste, Norte, Sul. Seria fácil dizer, por exemplo, em Coimbra: A1 Sul (Lisboa) e A1 Norte (Porto). Não usam. Como a gente sabe que Lisboa fica ao Sul de Coimbra e Porto ao Norte, tudo bem. Mas quando se indicam apenas cidades (às vezes cidadezinhas) que você não tem a menor idéia de onde ficam, você está perdido... Eu disse que não iria ficar contando histórias depreciativas de portugueses. Mas de vez em quando é difícil resistir. Hoje nos perdemos e parei numa área de descanso, em que há um posto de gasolina (todos eles self-service) e uma lojinha de conveniência. Como no posto não há ninguém atendendo, você precisa entrar na lojinha e perguntar para quem está atendendo ou quem está na fila esperando para ser atendido. Neste nosso caso, perguntei para o atendente, mas quem resolveu responder foi um senhor que estava na fila – muito prestativo. Explicou para a gente pegar a segunda saída, a da Ponte do Freixo, e, depois da ponte, pegar a segunda saída, etc. etc. Como ele próprio viu que a explicação estava ficando longa demais, parou, pensou um pouco e disse: “Há uma solução mais simples”... Parou mais um pouquinho e acrescentou: “Só que ela agora é mais complicada, porque a ponte está fechada para reparos”. Tudo bem: se a solução mais simples é mais complicada, a gente fica com a solução inicial, não é verdade? Ela nos trouxe de volta para o hotel. No Porto, 12 de novembro de 2006. Quinto dia no Porto: viagem a Guimarães e a BragaHoje, sábado, 11 de novembro, fomos a Guimarães e a Braga, duas cidades não muito distantes daqui do Porto (Braga fica mais perto e mais ao norte; Guimarães fica ao nordeste). Guimarães é tida como o berço de Portugal, porque Dom Afonso I (Dom Afonso Henriques), considerado por todo mundo como o primeiro rei de Portugal, teria nascido lá e usou a cidade, e o castelo que ali existe até hoje, como base de operações para as pretensões mais ambiciosas do então duque de Portucale. Quando Dom Afonso Henriques teve suas pretensões de ser rei do reino de Portugal reconhecidas pela Santa Sé, Guimarães foi declarada a capital do reino. O castelo é realmente lindo. Hoje entramos nele e subimos até a Torre de Menagem, de onde se tem uma vista excepcional. Essa torre, maior e mais alta, é rodeada por oito outras torres. Foi construído no século X, para deter ataques de normandos e mouros, e foi consideravelmente aumentado por Henrique de Borgonha, no século XII. O castelo possui uma pequena capela românica, chamada de São Miguel, onde está localizada a pia em que Dom Afonso Henriques supostamente teria sido batizado. No século XV foi construído, ao lado do castelo, por Dom Afonso, Primeiro Duque de Bragança, o Paço dos Duques, um enorme e lindo palácio (parecido com palácios ingleses), em que vários cômodos estão mobiliados e que hoje funciona como museu. Braga é a sede do arcebispo primaz de Portugal. A sua catedral, cuja construção foi iniciada no século XI, é magnífica. Ela foi construída no local de uma velha igreja, construída no século VI, e destruída posteriormente. Em Braga almoçamos em uma pequeda adega bastante acolhedora – gerenciada apenas por uma mulher e seu filho, ela na cozinha, fazendo a comida, ele servindo às mesas e cuidando dos demais aspectos administrativos. Comemos um bacalhau à moda de Braga, deliciosa, e tomamos o vinho branco da casa, servido em jarro, também muito bom. A adega tem lembranças deixadas por muitos fregueses. Bem na frente, em cima do bar, uma camiseta do glorioso São Paulo Futebol Clube, que, tudo indica, será o Campeão Brasileiro de 2006. Se isso de fato acontecer, como espero (e o mundo inteiro também), o SPFC terá sido, nos anos de 2005-2006, Campeão Paulista, Campeão Brasileiro, Campeão Latinoamericano, e Campeão Mundial. Nada mau. Passamos tanto tempo na adega que não tivemos mais muito tempo de ver algumas coisas muito bonitas na proximidade de Braga, como a igreja e a escadaria de Bom Jesus do Monte. Tudo tem seu preço. O tempo gasto na adega nos impediu de ver um monumento religioso e arquitetônico... Fica para uma outra vez! No Porto, 11 de novembro de 2006 November 11 Racismo e pensamento coletivizanteO racismo é um caso especial de uma forma mais genérica de pensar: o pensamento coletivizante (aquilo que os americanos chamam de “group thinking”). Quem pensa em termos coletivizantes atribui características às pessoas não com base naquilo que elas de fato são, pensam, fazem – mas com base nos grupos a que pertencem. No artigo de Emir Sader em Carta Maior, que acabou provocando a sua condenação judicial a um ano de detenção (em regime aberto) e à perda de seu cargo de professor da USP, Emir Sader demonstra, acima de qualquer dúvida, de que é um praticante contumaz do pensamento coletivizante. No artigo em questão, Emir Sader acusa o senador Jorge Bornhausen de várias coisas, entre elas: a) De ser burguês, isto é, de ser membro da classe social dos burgueses; b) De ser banqueiro, isto é, de ser membro da sub-classe dos proprietários de bancos (acusação, pelo que consta, falsa; c) De ser capitalista, isto é, de defender uma ordem social baseada no respeito aos direitos individuais e na liberdade, inclusive na esfera econômica; d) De ser direitista, isto é, de defender tendências políticas (como o liberalismo) que ficam à direita do espectro que vai do comunismo, à esquerda, ao anarquismo libertário, no outro lado; e) De ser fascista, isto é, de defender ou praticar as idéias do fascismo; f) De ser loiro; g) De ser do sul do país. No malfadado artigo, Emir Sader, além de acusar Jorge Bornhausen de todas essas coisas, o acusa de ser racista. E foi aí que a porca torceu o rabo, porque no Brasil racismo é crime sério – punível com prisão e inafiançável. Assim sendo, quem acusa outrem de racismo em geral tem de provar, e provar rapidinho – algo que, a julgar pela sentença judicial, o professor da USP não fez, razão pela qual foi condenado no processo de injúria e difamação que lhe moveu o loiro senador de Santa Catarina, presidente do Partido da Frente Liberal. Embora o crime de racismo esteja previsto na própria Constituição Brasileira, em nenhum lugar, na Constituição, ele é cuidadosamente definido. Vou argumentar, no que segue, que o racismo é um caso especial do pensamento coletivizante. Emir Sader, ao acusar Jorge Bornhausen de todas as coisas constantes dos itens “a” a “e”, pensa de forma coletivizante. Segundo Sader, o fato de Bornhausen ser burguês, banqueiro, capitalista, direitista, e fascista provam que ele é uma pessoa repulsiva (na verdade, uma das pessoas mais repulsivas do país) – que é a tese com a qual Sader inicia o seu artigo. Bornhausen pode até ser repulsivo. Não cabe entrar no mérito da questão aqui. Mas cabe entrar numa questão que podemos chamar de metodológica: se ele é ou não repulsivo é determinado (a) por quem ele é, como pessoa, e pelo que ele pensa e faz, como indivíduo, ou (b) pelos grupos ou “coletivos” do qual ele faz parte? Eu sou defensor da postura metodológica indicada em “a”: pensamento individualizante. Sader é defensor da postura metodológica indicada em “b”: pensamento coletivizante. Para mim, se uma pessoa, como o senador Bornhausen, é isso ou aquilo, só pode ser determinado com base naquilo que o senador Bornhausen é, como pessoa, pensa ou faz, como indivíduo. O fato de ele ser membro de classes, categorias ou grupos (“coletivos”) como a burguesia, os banqueiros, os capitalistas, os direitistas, ou mesmo os fascistas, não é suficiente (nem necessário) para que ele seja quem é, pense o que pensa, ou faça o que faça. Há pessoas que exibem todas essas características e não são repulsivas – como há pessoas repulsivas que não exibem nenhuma dessas características. Para Sader, basta afirmar que fulano é burguês, banqueiro, direitista, capitalista, fascista para incriminá-lo. O problema que Sader enfrentou foi que ele presumiu que quem é tudo aquilo que ele disse nos itens “a” a “e”, e, além de tudo, é loiro e catarinense, só pode ser racista. Logo, ele acusou Bornhausen de ser também racista – pegando, como pretexto, o fato de que Bornhausen, um ano antes, havia expressado contentamento diante da possibildade de que nos víssemos livres do que ele chamou de essa “raça” – os petistas. Acusou Bornhausen de cometer o crime de racismo, foi processado, e foi condenado por ter cometido o crime de injúria e difamação. Emir Sader achou que bastava listar os supostos fatos “a” a “g” (alguns não são nem fatos, como “b” e “e”) e estaria provado, para o juiz, que Bornhausen era racista. Enganou-se. Mas estou rodeando o toco e não estou definindo racismo. Antes de fazê-lo, vou procurar esclarecer alguns preliminares. O racismo, como já disse, é um caso especial do pensamento coletivizante. Preliminarmente, ser racista é pensar, e agir de forma coerente com esse pensamento, que alguém tem uma determinada característica, ou um determinado conjunto de características, simplesmente por pertencer a uma determinada raça. Afinal de contas, racismo tem que ver com raça. Hoje em dia se tornou moda negar que existam raças, ou pretender que “raça” não seja um conceito científico, sendo apenas um conceito cultural. No entanto, no modo de pensar da maioria das pessoas, raças existem – mesmo que o conceito não seja muito preciso e rigoroso – e estão relacionadas com algumas características físicas: cor da pele (branca, negra, amarela, vermelha, etc.), tipo de olhos, lábios, cabelo, etc. Refinando um pouco minha conceituação inicial, imaginemos que eu afirme que os orientais (chineses, japoneses, coreanos, etc.) são mais inteligentes e/ou esforçados do que pessoas de outras raças, porque nos exames vestibulares e outros sempre tiram notas maiores do que os demais. Se eu, ex hypothesi, afirmar isso, poderei ser acusado de racismo? Aqui a coisa começa a se complicar. Sem dúvida, ao afirmar isso estou pensando de forma coletivizante (com base nas estatísticas divulgadas), mas a minha intenção não é ofender os orientais – muito pelo contrário: ao afirmar ique são mais inteligentes e/ou esforçados do que os demais, eu estou, na verdade, elogiando ou louvando os orientais. Duvido que algum chinês, japonês ou coreano se disponha a me processar por crime de racismo se eu disser isso. Tomemos um segundo exemplo. Imaginemos que eu afirme que os orientais (chineses, japoneses, coreanos, etc.) têm olhos puxadinhos. Sem dúvida, ao afirmar isso estou pensando de forma coletivizante (com base nas minhas observações e leituras), mas a minha intenção não é ofender os orientais – embora, neste caso, também não os esteja necessariamente elogiando ou louvando: estou simplesmente constatando e relatando um fato. Tomemos um terceiro exemplo. Imaginemos que eu afirme que os orientais (chineses, japoneses, coreanos, etc.) são fingidos, dissimulados, pouco confiáveis, etc. Sem dúvida, ao afirmar isso estou pensando de forma coletivizante (com base seja lá no que for). Minha intenção, no caso, dificilmente pode ser caracterizada como sendo simplesmente constatar e relatar um fato, muito menos elogiar e louvar os orientais: minha intenção, nessa hipótese, provavelmente é usar uma generalização que, a meu ver, se aplica a uma raça inteira para ofender uma pessoa específica que seja oriental. Neste caso, consubstancia-se o crime de racismo. O racismo, numa conceituação mais precisa, se caracteriza pelo uso do pensamento coletivizante para ofender ou injuriar alguém por pertencer (real ou presumivelmente) a uma determinada raça (qualquer que seja). Aqui surgem algumas outras dificuldades. Se eu disser que os bahianos são preguiçosos e vagabundos, estarei cometendo o crime de racismo? Não, segundo esta conceituação, porque ser bahiano não é pertencer a uma raça. Se eu disser que os corinthianos são arruaceiros e tendentes ao crime, estarei cometendo o crime de racismo? Não, segundo esta conceituação, porque ser corinthiano não é pertencer a uma raça. Nesses dois últimos casos, se alguém, baiano ou corintiano, se julgar injuriado pelo que eu disse, pode me processar por injúria ou difamação. Não é apenas a acusação de racismo que dá causa e motivo para esse tipo de processo. Bornhausen não acusou Sader de ser racista: acusou-o de crime de injúria e difamação. Uma última observação. Se eu acusar alguém de ser racista (ou ladrão, corruptor de menores, etc.), e, no processo, conseguir provar, com evidências, testemunhos ou argumentos, que a acusação é correta e se justifica, eu não poderei ser acusado de crime de injúria ou difamação. No Porto, 11 de novembro de 2006 Bem-aventurados os pobres de espíritoApesar de Emir Sader ser um marxista, Jesus o abençoou, “preemptivamente”, quando pronunciou suas bem-aventuranças. Emir Sader é um pobre de espírito – e, como tal, certamente está no grupo dos que Jesus um dia declarou bem-aventurados. Que outra hipótese pode explicar que alguém chegue aos 60 anos dizendo e fazendo as besteiras que ele diz e faz? Sua pobreza de espírito é comprovável de muitas maneiras. Uma delas é a entrevista à imprensa em que ele procura "se defender" de sua condenação judicial. Vejamos os fatos: Jorge Bornhausen, senador da República e presidente do PFL, afirmou, em um evento com empresários, pelo que consta no ano passado, que estava encantado com a crise política brasileira e que esperava que, em decorrência dela, nos víssemos livres "desta raça por, pelo menos, 30 anos". Referia-se, como é evidente pelo contexto, aos petistas. Emir Sader resolveu publicar um artigo em Carta Maior (revista que parece aceitar qualquer coisa, desde que seja de esquerda) criticando o senador. Uso o termo “criticar”, mas o que Sader fez, como se verá, foi muito mais do que criticar. Em seu artigo no Carta Maior, Sader afirma, acerca de Bornhausen, várias coisas que a maioria de nós consideraria ofensiva, fossem elas ditas acerca de nós, mas que, a meu ver, não contêm, em si, a acusação de que o senador é criminoso. Diz, por exemplo, Sader: "O senador Jorge Bornhausen é das pessoas mais repulsivas da burguesia brasileira. Banqueiro, direitista, adepto das ditaduras militares, do governo Collor, do governo FHC, do governo Bush...". Não vou me ater, por significar absoluta perda de tempo, ao que Sader pensa de Bornhausen e que qualquer pessoa pode pensar, e dizer, de qualquer outra, sem com isso cometer crime. Eu, por exemplo, penso que o Emir Sader é uma das pessoas mais repulsivas da academia brasileira: sociólogo chinfrim, esquerdista, defensor incondicional do PT e do Lulla, adepto fervoroso e igualmente incondicional de Fidel Castro e defensor de sua tirania em Cuba, etc. Posso pensar e dizer tudo isso do Emir Sader – sem cometer crime. O problema surgiu quando Sader acusou Bornhausen de ser racista -- usando como única evidência a frase que o senador havia dito anteriormente, e que foi citada atrás. Ser racista, no Brasil, é crime -- crime tão grave que a é apontado na Constituição como punível com pena de prisão, inafiançável. Sader acusou Bornhausen, portanto, de haver cometido um crime – crime seríssimo. (É preciso ficar claro, aqui entre nós, que acusar alguém de ter cometido um crime e, instado a fazê-lo, não ser capaz de provar a veracidade da acusação feita, também é crime: crime de calúnia, de difamação, de injúria moral, etc.) Diz Sader: "[Bornhausen é] Repulsivo, não por ser loiro, proveniente de uma região do Brasil em que setores das classes dominantes se consideram de uma raça superior, mas por ser racista e odiar o povo brasileiro. Ele toma o embate atual como um embate contra o povo – que ele significativamente trata de 'raça'". Vários problemas nessa passagem infeliz. Primeiro, Sader não só chama Bornhausen de racista, como insinua que existem brasileiros que são racistas apenas em decorrência da cor de sua pele (ou cabelhos, ou olhos) e da região do país em que vivem. Segundo, Sader mente ao dizer que Bornhausen, ao usar a expressão "desta raça", se referia ao "povo brasileiro", e não ao PT. É evidente que Bornhausen estava falando do PT e não do povo brasileiro em geral. No parágrafo seguinte Sader reitera a sua mentira ao afirmar que Bornhausen "merece processo por discriminação" por "referir-se ao povo [sic] dessa maneira". Mais adiante, Sader repete a acusação feita, quando afirma: "Mas não se engane, senhor Bornhausen, banqueiro e racista..." Mais para o fim, Sader, no embalo, torna a acusação que faz ao senador Bornhausen mais grave ainda, ao dizer que pessoas como Bornhausen governam, ou governaram, o Brasil, "roubando, explorando, assassinando trabalhadores". Eis o que Emir Sader literalmente afirma: "Não, senhor Bornhausen, nosso ódio a pessoas abjetas como a sua, não os deixará livre de novo para governar o Brasil como sempre fizeram – roubando, explorando, assassinando trabalhadores." Ou seja: além de clara e inequivocamente acusar Bornhausen de ser racista, Sader o acusa também de outros crimes: roubar, explorar e assassinar trabalhadores. O essencial do artigo do Sader está aí. O resto é perfumaria. Perfume perigoso, mas perfumaria. Jorge Bornhausen processou Sader, como qualquer pessoa inocente, acusada desses crimes pela imprensa, o faria. O juiz que julgou o caso em primeira instância deu ganho de causa ao senador: quem acusa, prova -- e, segundo o juiz, Sader não provou nada. A sentença do juiz condenou Emir Sader a um ano de detenção em regime inicial aberto (pena substituível nas condições que aponta) e à perda do cargo de professor que exerce em universidade pública (a USP). Eis o que diz a sentença do juiz: [Condeno o réu] "à pena de um ano de detenção, em regime inicial aberto, substituída nos termos do artigo 44 do Código Penal por pena restritiva de direitos, consistente em prestação de serviços à comunidade ou entidade pública, pelo mesmo prazo de um ano, em jornadas semanais não inferiores a oito horas, a ser individualizada em posterior fase de execução. . . . Pelo disposto nos artigos 48 da Lei nº 5.250/67 e 92, inciso I, do Código Penal, considerando que o querelante valeu-se da condição de professor de universidade pública deste Estado para praticar o crime, como expressamente faz constar no texto publicado, inequivocamente violou dever para com a Administração Pública, segundo os preceitos dos artigos 3º e 241, XIV, da Lei 10.261/68, motivo pelo qual aplico como efeito secundário da sentença a perda do cargo ou função pública e determino a comunicação ao respectivo órgão público em que estiver lotado e condenado, ao trânsito em julgado.” Da sentença do juiz de primeira instância cabe, naturalmente, recurso. A sentença caiu como uma bomba nos meios acadêmicos de esquerda. Rapidamente os que adoram se nomear intelectuais (professores, poetas, compositores de samba, artistas de televisão, etc.) fizeram um manifesto e abaixo-assinado de apoio ao professor condenado. Será que os "intelectuais" pretendem reverter uma sentença judicial através "do clamor dos corredores acadêmicos" e não através de uma argumentação circunstanciada no processo? Emir Sader, ele próprio, depois de um período de silêncio, resolveu dar uma entrevista, se explicando e justificando -- e, sem aprender com o que lhe aconteceu, acusou, na entrevista, o juiz de ter agido politicamente. Afirma ele, na entrevista, entre outras coisas, o seguinte: "Aleguei que, no artigo que motivou o processo, respondi com indignação a uma agressão feita pelo senador Jorge Bornhausen. Não tinha a intenção de injuriá-lo, como a outra parte alegava." Emir Sader, pobrezinho, não teve a intenção de injuriar o senador. O professor tem 63 anos, é professor de uma das mais prestigiadas universidades do país, escreve semanalmente na imprensa, já publicou, pelo que se alardeia, 77 livros – e, coitado, não sabe que dizer todas aquelas coisas contra um senador da República apresenta um risco sério de processo de injúria e difamação. Ele chamou Bornhausen de todas aquelas coisas feias e o acusou de vários crimes, inclusive racismo, que é crime punível com prisão e inafiançável, e não fez isso com a intenção de injuriar o senador? Quanta ingenuidade!!! Ou quanta cara-de-pau!!! Com base na audiência de que participou, afirma Sader em outra parte da entrevista, ele ficou com "a impressão" de "que não se tipificavam as acusações que se materializaram na sentença, como a de difamação". Quanta ingenuidade... Quanta pobreza de espírito!!! Indagado se via "alguma relação entre a sentença e o momento político", Sader não deixou passar a dica: "Acho que a rapidez dos trâmites e o resultado da disputa eleitoral mostra que estamos diante dos estertores de uma direita desolada, que busca demonstrar o poder que ainda tem." O que quer dizer isso, senão que Sader acusa a justiça de ter agido por motivação política no processo do senador contra ele? O ex-professor é um pobre de espírito -- está mais do que comprovado. Emir Sader não é a vítima de nada, a não ser de sua própria burrice e ignorância. Jorge Bornhausen não agrediu Emir Sader nem o acusou, pessoalmente, de nada. Bornhausen disse apenas que esperava que o país se visse livre dessa raça (referindo-se aos petistas) por, pelo menos, 30 anos -- e "ver-se livre", no caso, quer dizer apenas que ele esperava ver os petistas derrotados politicamente, não significa que ele desejasse ver os petistas condenados "al paredón" (como as vítimas da tirania do ídolo de Sader) ou sequer presos (embora os petistas que cometeram crimes certamente devam ser condenados e devidamente punidos). A vítima, nesse caso todo, foi Bornhausen, nunca Sader. Ser racista é crime sério. Ser acusado indevidamente de haver cometido crime, também é crime de difamação e injúria. Quem cometeu crime, no caso, e por ele já foi condenado em primeira instância, foi Emir Sader. Ser condenado por ter cometido um crime não é ser vítima: vítima é aquele contra o qual o crime foi cometido. A esquerda está tentando inverter os papéis. Bornhausen apenas fez o que qualquer pessoa inocente, indevidamente acusada de um crime, faz: processou o caluniador. Ganhou em primeira instância. Espero que continue ganhando nas demais. O fato de Emir Sader ser um professor universitário e usar dos privilégios da cátedra para acusar alguém de crime apenas agrava a sua condição, como bem mostrou a sentença do juiz. Liberdade de cátedra não inclui a liberdade de acusar os outros, impunemente, de crimes que eles não cometeram. No Porto, em 11 de novembro de 2006 November 10 Quarto dia no Porto: A visita a ChavesHoje, 10 de novembro, sexta-feira, tirei para ir visitar a cidade de Chaves. Não é perto daqui. Na verdade, fica a cerca de 180 km, na direção de Trás-os-Montes, ao norte de Vila Real, mais ou menos entre as serras do Barroso e da Padrela, um pouco ao mais ao norte, às margens do rio Tâmega, já bem perto da fronteira de Portugal com a Espanha (no rumo de Verín): de Chaves até a fronteira são 10 km apenas. Chaves é cidade antiga. Foi fundada pelos romanos, em 78 AD, com o nome de Aquae Flaviae. A referência à água no nome original se deve ao fato de que a cidade é famosa por suas águas termais (aqui conhecidas como “caldas”). Depois dos romanos, ocuparam a cidade os suevos, os visigodos e os mouros. A cidade só passou a ser portuguesa com a criação do reino de Portugal, por Dom Afonso Henriques, e a reconquista das terras portuguesas que estavam nas mãos dos mouros. Há várias teorias para a transformação do nome “Aquae Flaviae” em “Chaves”. Segundo alguns, numa teoria que parece ser a mais geralmente aceita, “Chaves” é uma corruptela de “Flavia” / “Flavius” . Outros afirmam que Nuno Álvares Pareira, herói da batalha de Aljubarrota, nas guerras da reconquista, teria recebido na cidade as chaves do Norte de Portugal. Uma terceira teoria apela para o fato de que a cidade era murada, e que, como tal, só era aberta com chaves... O monumento mais famoso da cidade é a maravilhosa ponte romana sobre o rio Tâmega, construída, em pedras romanas, com 16 arcos, em cerca de 100 AD (na época do imperador Trajano) – e extremamente bem conservada até hoje, tanto que é usada: carros passam em cima dela o tempo todo. A ponte deu maior importância à cidade, que se tornou um entreposto importante na rota entre Astorga, na Espanha, e Braga, em Portugal. Já devia ter perto de 50 anos quando ouvi falar em Chaves pela primeira vez. A pessoa que trouxe Chaves ao meu conhecimento foi meu grande amigo Paul Shephard. O Paul foi meu colega na UNICAMP, mas depois saiu para trabalhar na ALCOA (empresa na qual implantou toda a estrutura de recursos humanos na fábrica de São Luís, MA) e, depois, da DuPont (empresa pela qual foi enviado a Oviedo, no Norte da Espanha, para também implantar a estrutura de recursos humanos da fábrica que estava sendo construída ali). Ao todo creio que ele viveu cerca de 10 anos em Oviedo, até se aposentar e voltar para os Estados Unidos, seu país natal. Em uma dessas viagens de conhecimento da região, provavelmente num fim de semana, o Paul foi parar em Chaves – e lá comprou um jornal da cidade (“Notícias de Chaves”), que me enviou. Foi assim que tomei da existência de uma cidade com o nome da minha família. No devido tempo li que muitos dos Chaves que existem pelo mundo são, provavelmente, oriundos de famílias que têm suas raízes em Chaves, PT. Faz sentido. Ainda esta semana li algo a respeito num livro que vi na Fnac aqui no Porto. Mas seja lá como for, adotei Chaves como minha “alma mater” aqui em Portugal, mesmo sem conhecer a cidade. Hoje, fomos lá prestar nossa homenagem à cidade que tem o meu nome – ou a cidade cujo nome eu carrego. Saímos cedo, por volta das 7h. Encontramos o caminho facilmente para sair da cidade – também eu estudei o mapa cuidadosamente ontem e pedi alguma ajuda ao recepcionista do hotel. Em pouco tempo pegamos a A3, de lá a A4, que depois vira IP4 e com esse nome chega a Vila Real. De lá pegamos a N2 até Chaves – uma estrada estreitinha, cheia de curvas, passando pelas montanhas... Chegamos a Chaves por volta das 10h30 – e a cidade estava coberta de névoa. Não dava pra ver quase nada. A névoa só sumiu por volta do meio dia. No ínicio fiquei meio desapontado. A névoa não deixava ver quase nada, entramos na cidade por um lado ruim... Mas aos poucos fomos descobrindo as belezas da cidade – à medida que a névoa ia indo embora. Vou direto ao ponto: nada se compara à Ponte Romana. Vou colocar aqui neste space várias fotos dela. Fiquei a andar pelas margens, tirando centenas de foto. A Sueli se cansou e se sentou, ficando apenas a olhar. (Espero que apreciem minhas construções lusitanas: a andar, a olhar – em vez do gerúndio). Tirei fotos dos dois lados da ponte e das duas margens. Até os patos (ou gansos) que estavam no rio entraram na minha dansa. Fiquei parado ali, olhando para a ponte, e imaginando que ela tem quase dois mil anos – e está ali, funcionando direitinho, tão bonita quanto sempre foi. Um outro ponto de interesse: o Castelo de Chaves e a muralha da cidade, quase que totalmente destruídos hoje, exceto pela Torre de Menagem (que abriga um Museu Militar) e por pedaços da muralha aqui e ali. A torre está cercada por um lindo jardim, muito bem cuidado. O castelo original data do período romano, mas foi arrasado no século XIII, depois reconstruído, no século XIV, por Dom Dinis, mas novamente destruído. Como disse uma senhora com quem entabulamos conversa numa loja, parte do castelo e da muralha foi destruída e parte está “subterrada”. Lindo também é o Forte de São Francisco, do século XVI, que abrigou um convento e hoje abriga um hotel (além de uma linda capela). Entrei lá, andei... Tem também uma taverna muito pitoresca, daquelas com pernis e lingüiças penduradas no teto. Há um outro forte, fora da cidade, o de São Neutel (construção iniciada em 1664), mas esse não fomos ver. O Paço dos Duques de Bragança também vale a pena ver. Vários prédios bonitos ali, datando do século XVIII, hoje abrigam o Museu da Região Flaviense (flaviense é o adjetivo referente a Chaves) e parte da Biblioteca Municipal – embora tenha sido construída uma nova biblioteca, perto do Correio, muito chique e moderna. (Fui lá para obter uma versão digital do brasão da cidade). Quanto às termas, transcrevo aqui o texto do folheto sobre Chaves distribuído pela Região de Turismo do Alto Tâmega e Barroso: “As Caldas de Chaves ou Termas de Chaves: situam-se em plena cidade, entre o rio Tâmega e a zona urbana medieval, são as segundas mais freqüentadas do País. As suas águas são alcalinas, com um PH aproximado de 7,3, bicarbonatadas-sódicas e hipertermais. São indicadas para o tratamento de afecções reumatismais, osteo-articulares, do aparelho digestivo e das vias respiratórias. A temperatura das águas, à saída das nascentes, é de 73 graus, durante todo o ano, o que faz delas as mais quentes da Península Ibérica e as águas bicarbonatadas-sódicas mais quentes da Europa. As Caldas de Chaves, tão antigas quanto a própria urbe, são uma das mais conceituadas estâncias termais portuguesas. Todos os anos, especialmente durante o Verão, deslocam-se aqui milhares de aquistas e seus familiares vindos de todos os pontos do País e do estrangeiro. As Caldas de Chaves foram distingüidas com o prémio de ‘Melhor Unidade Termal’ pelos participantes do programa Saúde e Termalismo Sénior do Inatel”. (Vide http://rt-atb.pt). Almoçamos no restaurante do Hotel Trajano, onde comemos bacalhau e tomamos uma garrafa de vinho local – muito bom, por sinal. Na saída da cidade encontrei o prédio da Cooperativa Agrícola e Vinícola de Chaves, onde comprei uma garrafa de um vinho, marca Chaves, Reserva, 2001. Não abri ainda. Mas deve ser tão bom quanto o que tomamos no restaurante, outra marca da mesma cooperativa. Gostaria de poder levar para o Brasil várias caixas desse vinho, para comemorar ocasiões especiais com a família e os amigos. Depois de Chaves, ainda fomos até Bragança. Um dos meus tios, Raul Chaves, irmão do meu pai, era casado com Catarina Bragança, também de Patrocínio, MG. Por coincidência as cidades de Chaves e de Bragança são relativamente próximas. Em Bragança o destaque é o magnífico castelo. Lindo, lindo, lindo. Como chegamos meio tarde, esperamos ver o acendimento das luzes, e pudemos tirar fotos dele artificialmente iluminado. Chegamos de volta ao redor das 20h. Comemos alguma coisa aqui no quarto mesmo. Eu continuo funçando nas minhas coisas. A Sueli já foi deitar-se. Ainda sob a emoção de ter visitado Chaves, quero começar uma linha de reflexão sobre uma coisa que tem despertado a minha curiosidade, faz alguns anos. Nasci em Lucélia, SP. Saí de lá pequeno (menos de um ano) e nunca mais voltei – até 2003. Em 2003 fui dar uma palestra em Dracena e aproveitar para ir de carro e passar um dia em Lucélia, que fica no caminho. Fiquei extremamente emocionado ao ver a cidade – especialmente quando localizei a casa em que nasci: um bangalozinho de madeira, com quarto, sala, cozinha e uma pequena varanda, situado quase num buraco, na antiga rua Amazonas. Nasci lá naquela casa, não no hospital. Ao contemplar a casa, ao ver a cidade, ao ver a igreja de que meu pai foi pastor (hoje é do Evangelho Quadrangular), ao visitar a estação ferroviária (abandonada) onde eu, com um mês de vida, tomei o trem para Campinas, fiquei emocionado. E me perguntei sobre o impacto que essas coisas têm sobre a gente. Terra natal. Aqui em Chaves fui tomado pelo sentimento de raízes, antepassados, genealogia. Há tempo me interesso pro isso. Fiquei imaginando, enquanto olhava a ponte milenar, se alguns de meus antepassados teriam mesmo saído dali, daquela cidade, daquela região que se rotula flaviense. O meu irmão se chama Flávio – Flávio Chaves. Um tio-avô ou tio-bisavô meu, que foi senador da província de Minas Gerais, também se chamada Flávio – Flávio Gonçalves Chaves. Tenho uma foto dele, distintíssimo. Será que algum antepassado dele, e, por conseguinte, meu, veio do “Município do Concelho de Chaves”? Fico curioso. Curioso duas vezes: curioso para querer saber a resposta e curioso para querer saber por que isso parece importar tanto... Chaves tem três jornais: o “Notícias de Chaves”, o “A Voz de Chaves”, e “O Intransigente”... Gostei do título deste último. Acho que devemos ser intransigentes mesmo, na defesa da liberdade, dos direitos, da verdade, da honra, do nome... Para homenagear Chaves adquiri ontem o domínio chaves.com.pt – e já criei um esboço de site em http://www.chaves.com.pt. Portugal deveria processar o Partido dos Trabalhadores por uso indevido da sigla PT. No Porto, 10 de novembro de 2006 November 09 Terceiro dia no Porto: Vagabundeando pela cidadeJá escrevi uma matéria, hoje, 9 de novembro, quinta-feira, “As coisas boas da vida”, que descreve parte do que fizemos. Na verdade, não fizemos muito mais do que isso. Hoje literalmente vagabundeamos pelas ruas, sem um propósito definido. É bom ter tempo suficiente numa cidade para poder vagabundear pelas ruas, sem compromisso, parando aqui, entrando numa loja ali, comprando uma coisinha ou outra que nos faça lembrar do lugar. Hoje saímos de manhã, tomamos café de novo no Bella Roma, e andamos pelo lado da Torre dos Clérigos e do Fórum (chamado, imponentemente, de Casa da Justiça: “Domus Justitiae”). De lá voltamos à praça que fica entre a Avenida dos Aliados, subimos até a Câmara Municipal, visitamos a Igreja da Trindade, atrás da Câmara, e perambulamos pelas ruas de comércio, até chegar na Rua Santa Catarina, em que fica o Café Majestic e que termina em frente do nosso hotel, na Praça da Batalha. No caminho, encontramos um supermercadinho pequeno, entramos, compramos vinho e chocolate, e voltamos para o hotel. Descansamos um pouco – eu fiquei lendo a minha deliciosa História de Portugal – e, depois das 15h, saímos para almoçar no já mencionado Café Majestic. Depois de lá, rodamos mais um pouco e voltamos para o hotel. Ontem andamos demais. Hoje precisamos compensar e ficar mais calmos um pouco... Amanhã provavelmente iremos a Chaves. A História de Portugal que estou lendo ressalta a importância de Chaves, fundada no primeiro século da nossa era, e que possui um dos mais antigos monumentos romanos em boa forma, uma ponte, linda (vista em fotos). Não vejo a hora de ir lá. Hoje à noite, torcer pelo São Paulo Futebol Clube. Aqui em Portugal, parece que o Chaves Futebol Clube caiu para a Segunda Divisão. Vou sugerir ao SPFC que adote o CFC. No Porto, 9 de novembro de 2006 As coisas boas da vidaDesde que assisti à novela “O Casarão”, de Lauro César Muniz, que foi transmitida pela Globo nos idos de 1976, e que tem, ao final, uma cena antológica em que Paulo Gracindo e Yara Cortez finalmente se encontram na Confeitaria Colombo no Rio de Janeiro, quarenta anos depois de ela haver faltado ao primeiro encontro, colocando um hiato enorme no relacionamento deles, tive vontade de ir à Confeitaria Colombo. Já passei em frente dela várias vezes, na Rua Gonçalves Dias, no coração do Rio antigo, mas nunca tive tempo ou ocasião de entrar e me tornar cliente... Ela foi aberta em 1894 – há 112 anos. O tempo mudou. A rua Gonçalves Dias não é hoje, nem de longe, o que era no fim do século XIX, começo do século XX. Mas a Confeitaria Colombo está lá. Incomparável. Quem não a conhece “de corpo presente”, pode fazê-lo, virtualmente, através do site http://www.confeitariacolombo.com.br/. Vale a pena. O site também é um luxo. Hoje passamos, aqui no Porto, em frente a um café, na Rua Santa Catarina, uma rua apenas de pedestres, que se denomina “o coração do Porto”. Ao olhar, tive a impressão de estar olhando para uma réplica da Confeitaria Colombo. Trata-se do Café Majestic – criado em 1921. Requinte puro. Como diz a publicidade que, depois, vim a ver, “o Majestic é um dos mais selectos cafés do Porto”. O vídeo que é mostrado no site e que você pode baixar afirma que o café é “o esplendor da Belle Époque no Porto”. Não há exagero nisso. Se duvidam, confiram no site – que, também, é um luxo. Fica em http://www.cafemajestic.com/prt/. E não deixem de ver o vídeo. Diferentemente do que aconteceu com a rua Gonçalves Dias no Rio, a rua Santa Cantarina no Porto é ainda uma rua chique. Chiquérrima, na verdade. Em fronte ao café está, hoje, a Fnac. Ambos ficam a 5 minutos do meu hotel. Almoçamos lá hoje - tarde, no dia, "comme il faut" a quem está de férias. Mas estou escrevendo isso para levantar a seguinte questão: por que a maioria das coisas boas da vida não estão disponíveis a não ser para uma elite? Não pretendo negar que haja coisas boas na vida – na verdade, coisas magníficas – que não custam nada, ou muito pouco. Mas a maioria das coisas boas está inacessável para a maior parte das pessoas: elas custam caro. É esse o preço que é pago para que possam manter seu diferencial. Um café com leite grande, na Bella Roma, onde temos tomado café da manhã, custa 85 cêntimos de Euro (O Euro em Portugal tem cêntimos, não centavos). No Majestic um cafezinho custa o dobro disso. Uma cerveja, na Bella Roma, custa 1 Euro. No Majestic, 3 Euros. O diferencial no preço não é ganância capitalista, como diriam os esquerdistas. É o preço de manter um local diferenciado, lindo de morrer, com garçons e garçonetes bonitos, bem vestidos, atenciosos, competentes no atendimento dos clientes. Na Bella Roma, um garçon – simpaticíssimo, por sinal – atende a uma multidão de clientes. No Majestic, há vários. Se o governo socialista que está no poder em Portugal (José Sócrates é o Primeiro Ministro) resolver eliminar ou reduzir a desigualdade social e exigir que os estabelecimentos comerciais cobrem todos o mesmo preço, o Majestic não durará seis meses – a menos que o governo tabele o preço com base no “preçário” do próprio Majestic (o termo “preçário” é usado aqui – junto com “ementa”, que é o termo que preferem para designar o menu). Mas neste caso, tudo custando o preço que cobra o Majestic, as pessoas que ainda não são clientes, mas puderem pagar, provavelmente aumentar a clientela do café até o ponto em que este não terá condições de manter o mesmo padrão. Fico pensando nas escolas públicas brasileiras. Elas eram escolas de qualidade – verdadeiras escolas de elite – quando eu as freqüentei, nos anos 50. A competição para entrar nelas era acirrada – porque a sua qualidade era muito acima da das demais. O Exame de Admissão ao Ginásio que fiz em 1955 é prova disso: de 330 candidatos, só 30 entraram. Ponto final. Nada menos do que 300 excedentes – mais de 90%. O clima político mudou. As escolas públicas não podem mais atender apenas os melhores, do ponto de vista acadêmico: têm de atender a todos. Para tanto, criaram-se milhares de escolas, contrataram-se centenas de milhares de professores. Hoje, dentro de limites, quem quiser uma vaga na escola pública tem. Acabou a seleção. Acabou o “elitismo”. Mas acabou também a qualidade. O Café Majestic da educação virou uma lanchonete de rodoviária. É possível compatibilizar a maior qualidade com o atendimento universal – de todos, indiscriminadamente, sem seleção? O mesmo problema ronda hoje as nossas universidades públicas, pressionadas a adotar sistemas de cotas. Predigo que, em pouco tempo, quem quiser estudar em uma universidade pública será capaz de fazê-lo. Mas a elite acadêmica vai querer distância dela – e falo não só dos alunos: incluo aí os proferssores. A única coisa que tornou possível que o Café Majestic sobrevivesse durante 85 anos, foi o fato de que atende à elite. Se tivesse virado uma franquia, teria perdido a majestade. No Porto, em 9 de novembro de 2006 November 08 Segundo dia no Porto: Os cais do DouroHoje, dia 8/11, quarta-feira, resolvemos ficar aqui no centrinho histórico do Porto, ao lado dos cais do Rio Douro, curtindo as preciosidades que há aqui. Descemos da Praça da Batalha, onde fica o nosso hotel, até a praça da Estação Ferroviária, e fomos tomar café da manhã na Bella Roma, mesmo local em que comemos as “francesinhas” ontem. O café aqui no Porto sai pela metade do preço que pagávamos por ele na Áustria, na Alemanha, na Suiça e na França. Depois do café passamos em frente à estação e fomos na direção do rio, passando pela Catedral e pelo Palácio Episcopal. De lá atravessamos a Ponte Dom Luís I, que, no nível em que a atravessamos, muito alto, é reservada ao metrô e a pedestres. Os automóveis passam no nível inferior, que fica no mesmo plano que as margens do rio. Tiramos inúmeras fotos lá de cima, de ambos os lados. No final da ponte há um jardim e uma igreja, e umas ruelas íngremes que nos permitiram descer para os vários cais do rio. Do lado da Nova Gaia há inúmeras fábricas de vinho do Porto, quase todas elas com museus e serviços de degustação. (Você pode degustar se pagar os 2 ou 3 Euros de entrada no museu...). Mais para a frente há inúmeros restaurantes – velhos, de um lado da rua, e novos, do outro lado, beirando o rio. São construções padronizadas, muito bonitas. Há ali restaurantes de todo tipo: desde comida mineira até comida indiana. Mas a maioria estava fechada. Pelo jeito o movimento deles é nos fins de semana, especialmente à noitinha e durante o verão. Almoçamos num deles, que estava aberto: "L'Art du Fondue" (http://www.artdufondue.com). A comida não foi lá aquelas coisas, mas o restaurante era muito agradável. Vejam o site. Saindo de lá fomos para a outra margem, atravessando a ponte agora no nível inferior. Ali estão vários restaurantezinhos, mais populares, em meio a lojinhas de lembranças, etc. Já eram mais de 15h quando voltamos para o hotel, cansadíssimos depois de subir todos os morros necessários para voltar à Praça da Batalha. Descansamos um pouco e saímos, lá pelas 19h, para ir à Fnac. Lá tomamos um lanche enquanto víamos um filme-documentário muito interessante sobre os pastores da Serra da Estrela em Portugal. O nome do filme é “Ainda há pastores?” e o realizador é Jorge Pelicano, que levou cinco anos fazendo o filme – é o seu primeiro. Ele estava lá na Fnac, acompanhando a exibição: moço, inteligente, ele certamente é uma grande esperança para o novo cinema português. Vide http://aindahapastores.blogspot.com/. Vale a pena. Vejam ainda a reportagem sobre o prêmio que o filme ganhou: http://jn.sapo.pt/2006/10/30/cultura/ainda_pastores_vence_premio_lusofono.html. O trailler do filme pode ser visto no YouTube: http://www.youtube.com/watch?v=lZ6ZoezlfN8. Na Fnac comprei ainda alguns livros, entre eles uma história de Portugal – dos primórdios até o presente. Vou me enfronhar melhor da história do país agora. Já devia tê-lo feito, antes de vir, mas... Num outro artigo pretendo comentar meu sentimento de lusitanidade desde a minha estada aqui – que certamente vai se aprofundar quando visitar Chaves, na semana que vem. Voltando ao hotel, tomamos um vinho Porto e viemos para o quarto. Com o fim da viagem se aproximando, há muitas coisas a arrumar... No Porto, 8 de novembro de 2006 November 07 Viagem Lisboa - Porto e primeiro dia no PortoSaímos de Lisboa mais ou menos às 8h30, hoje, 7 de novembro – dia em que meu avô materno, Juca de Campos, que faleceu em 1967, comemorava seu aniversário. Chegamos ao Porto eram mais ou menos 14h. Paramos várias vezes: para tomar café, ainda perto de Lisboa; para colocar gasolina, já depois de Coimbra; para perguntar como chegar à Praça Batalha, no Porto, quando percebemos a encrenca que iria ser entrar na cidade e encontrar o hotel. Além disso, demos uma volta por Alcobaça, perto de Leiria, para tentar encontrar o Mosteiro do Cós, edifício considerado patrimônio histórico mundial pela UNESCO. Foi uma decepção. O dito mosteiro é uma igreja velha, com algo que pode ter sido um dia um mosteiro anexado, fechado ao publico, num lugar que tem todas as aparências de abandonado. Não acreditava que pudesse ser aquilo. Perguntei a um senhor que passava se aquele era o mosteiro escolhido como patrimônio mundial pela UNESCO. Disse que sim. Disse ainda que, se quiséssemos entrar, teríamos de pedir à chava a uma senhora que tinha um pequeno estabelecimento comercial do outro lado. Fomos para o outro lado, e não havia nenhum pequeno estabelecimento comercial aberto. Perguntamos a um outro senhor sobre a chave. Ele disse que teríamos de ir até a Igreja, pedi-la ao padre. Desistimos. Pela aparência externa não haveria nada muito interessante dentro. Posso ter errado em não ir atrás do padre, mas... Ou, então, torço para ter ido ver o mosteiro errado. Visitando agora o site http://whc.unesco.org/ da UNESCO, noto uma discrepância no nome do mosteiro. O que fomos visitar era aparentemente chamado Mosteiro de Cós, na vizinhança de Alcobaça. Havia uma placa na estrada indicando ser um Patrimônio Histórico da Humanidade. No site o nome do mosteiro é Mosteiro de Santa Maria d’Alcobaça. Só há uma foto da parte de dentro no site, de modo que não dá para verificar se é o mesmo... Problemas de turista!!! [Pesquisa adicional inserida: verificando na Wikipedia, constatei que fomos ao mosteiro errado e que as pessoas nos deram informações erradas. Vejam http://pt.wikipedia.org/wiki/Mosteiro_de_Alcobaça. Não foi esse mosteiro da foto que nós vimos... Deixo o texto anterior só para dar uma idéia dos problemas de turistas...] Chegando ao Porto, constatamos que a cidade é complicada. O rio Douro corta a cidade, que é cheia de pontes, morros, etc. Depois de muito errar, achamos um hotel Mercure – mas era o errado. Parei lá e o rapaz na recepção me disse que deveria chamar um taxi e pedir que ele nos guiasse. Perguntei se ele não poderia nos dar um mapa e instruções – e ele disse que sim, mas que não adiantaria, pois a gente não encontraria. Era verdade. Chamei um taxi e ele nos levou até o outro hotel Mercure, na Praça Batalha, no coração do centro histórico do Porto. Ali começou uma outra série de problemas. O hotel não tem quase nem mesmo calçada para o carro parar. Parei em cima de um pedaço de calçada, roubando espaço de um pequeno café, que já roubava o pouco espaço de calçada disponível. Assim que parei uma perua tentou entrar no bequinho do lado do hotel e não conseguiu. Buzinou. Disse que iria colocar o carro mais adiante. Mas quem estava atrás da perua começou então a buzinar... Finalmente, coloquei o meu carro totalmente em cima da calçada e entrei no hotel, perguntando onde era o estacionamento. Resposta do recepcionista: o senhor só reservou quarto, não reservou garagem, e não temos nenhuma garagem disponível... Quase tive um ataque. Desde quando é preciso reservar garagem, separadamente do quarto??? Mas aqui, é, porque o hotel tem apenas poucas vagas, visto estar no centrinho histórico... Disse-me, entretanto, que têm um convênio com um estacionamento (Estacionamento Ibéria) e que eu poderia deixar o carro lá nas mesmas condições que ele, o hotel, oferece (sete Euros por dia). Menos mau. Preenchi os formulários, mostrei os passaportes, etc., e ele disse que levássemos as coisas para cima, deixando o carro na calçada. Não haveria problema, garantiu. Fui até o quarto, onde fiquei agradavelmente surpreendido. Era uma confortável suite, com uma sala com televisão independente, sofás, escrivaninha, etc., separada do quarto. Assim posso usar a Internet até mais tarde, sem incomodar a Sueli, que gosta de dormir cedo... Mas, de volta à recepção, o recepcionista me dá um mapa para chegar ao estacionamento... Disse a ele que ele havia dito que era perto... Ele, pacientemente, me levou até a porta e mostrou um local, chegando do outro lado da praça. Era lá. O problema, explicou, é que o trânsito ali é muito complicado, cheio de contra-mãos, ruas bloqueadas ao tráfego, ruas nas quais apenas ônibus e taxis podem transitar. Assim, para chegar ao estacionamento, tinha de dirigir por cerca de 2,5 km: descer o morro, passar na frente da estação de estrada de ferro, subir um outro morro, virar à esquerda no rumo da Catedral, passar dois semáforos, atravessar um viaduto, virar à esquerda no semáforo seguinte, e seguir até o fim da rua, que era na dita praça em cujo outro lado estava o hotel. O que vocês acham? Cumpri rigorosamente as instruções, muito precisas por sinal, mas não havia nenhum estacionamento naquela rua, quanto mais um chamado Ibéria. Resolvi fazer tudo de novo. Quando estava chegando no mesmo local pela segunda vez, sem ver o estacionamento, resolvi parar e perguntar. Entrei num estacionamento privado, do Clube Vasco da Gama, e encontrei um senhor ao qual perguntei onde ficava o estacionamento Ibéria. Ele disse que a entrada era meio complicada, porque era necessário dar uma entradinha num bequinho que não era muito visível... Pediu a um rapaz, que saía do estacionamento com uma Mercedes, que me mostrasse. Saí do estacionamento do Vasco da Gama, que era num buraco, através de uma rampa que inspirava medo no melhor motorista, e, ao chegar à rua, o rapaz, depois de dirigir uns 100 m, fez sinal para entrar no dito bequinho, à direita. Entrei e imediatamente na esquina havia uma portinha para um salão escuro e para uma rampa íngrema (para baixo). Era ali. Deixei o carro, com as chaves, os cds, etc., tudo lá e recebi um comprovante. O carro, espero, continua lá. Depois de tomar um banho e trocar de roupa – estava cansadíssimo e suado, com todo o stress – saímos a pé. Não levei agasalho. O dia havia sido bonito e quente. Bom, saímos, descemos o morro a pé, e o tempo virou. Escureceu, começou a ventar, esfriou, e, logo depois, começou a chuviscar. E eu sem agasalho algum – e ainda gripado. Na esperança de que o tempo voltasse a ser o que era, entramos numa linda padaria (portugueses são bons nisso), com uma enorme (mas apertada) lanchonete do lado, para comer uma francesinha. Antes que se assustem, francesinha é um lanche que nos foi altamente recomendado como uma especialidade do Porto. Entramos, arrumamos um lugar junto da parede, onde o apertamento era protegido de um lado, e informamos ao garçon que queríamos experimentar uma francesinha. Ele perguntou: normal ou especial? Perguntei o que é que a especial tinha que a normal não. A resposta é que a especial vinha com um ovo frito em cima e com batatas fritas. A Sueli optou pela especial – eu fiquei com a normal. O garçon perguntou se queríamos o molho bem apimentado, e a Sueli disse que ela sim. Eu acredito ter respondido com a cabeça que não. Enfim, vieram as francesinhas. São sanduíches em pão de forma, num prato grande, fundo, que vêm cobertos com camadas e camadas de queijo derretido, e nadam em um molho escuro. Entre as duas fatias de pão há literalmente de tudo: mais queijo, presunto, bacon, lingüiça, salsicha (bem temperada), e só Deus sabe mais o quê. Asseguro: é gostoso – mas é a coisa mais menos sadia que já comi nos últimos tempos. E o molho, posso garantir: o meu também veio bem apimentado. Minha boca ficou ardendo. Até agora ainda sinto o gosto da francesinha na boca. Já experimentamos, na hora de comer é bom, mas foi a primeira e a última vez. Amanhã só como salada. Ao sair do restaurante, a chuvinha continuava. Viemos pelas beiradas das casas (o guarda-chuva que compramos em Salzburg ficou no carro, local em que sempre estão os guarda-chuvas quando a gente precisa deles na rua), e descobri que há uma Fnac na rua do lado do hotel. Parece que os deuses conspiram contra mim até aqui. Desde Paris que não paro de ser perseguido por Fnacs. Em Paris elas estão partout. Em Lisboa havia uma em cada shopping center. E aqui no Porto há uma do meu lado. Pode? Vamos ter mesmo de comprar uma outra mala (não a menorzinha: a segunda menor). De volta ao quarto, dei uma cochiladinha, e estou aqui, cumprindo com prazer o meu dever de blogueiro. Amanhã ficaremos rodando aqui por perto. Disse-me o recepcionista que do outro lado do rio há uma série de pequenos restaurantes e de fábricas de vinho do Porto, onde a gente pode experimentar o dito cujo... O que vocês acham: salada com vinho do Porto vai bem? No Porto, 7 de novembro de 2006 November 06 Sexto dia em Lisboa: Palmela, Setúbal, SesimbraHoje, segunda-feira, 6 de novembro, saímos de Lisboa para ir a Setúbal. No caminho, porém, vimos um castelo no alto de um morro, com a indicação de que a cidade era Palmela e o castelo era chamado, sem muita criatividade, de Castelo de Palmela. Saímos da rodovia principal e rumamos para Palmela. Foi uma decisão tomada ali num instante, dirigindo a 120 km/h, e, no entanto, valeu o nosso dia. O castelo é magnífico – e a vista lá de cima, indescritível. Antes de continuar, vou transcrever o que diz a Wikipedia sobre o Castelo de Palmela: [Início da transcrição] “O Castelo de Palmela localiza-se na vila, freguesia e concelho de mesmo nome, Distrito de Setúbal, em Portugal. Na península de Setúbal, no contraforte Leste da serra da Arrábida, está situado entre os estuários do rio Tejo e do rio Sado, próximo à foz deste último. Inscreve-se na chamada Costa Azul, no Parque Natural da Arrábida. Do alto da sua torre de menagem, em dias claros a vista se descortina até Lisboa. A primitiva ocupação humana da região remonta à pré-história, particularmente ao período Neolítico, conforme os testemunhos arqueológicos nela abundantes. Alguns estudiosos apontam a data de 310 a.C., para a fundação de um povoado no local da atual Palmela, fortificado à época da romanização da península Ibérica, em 106, por um pretor da Lusitânia, de nome Áulio Cornélio (ou Áulio Cornélio Palma, segundo outros). A moderna pesquisa arqueológica comprova, entretanto, que a subsequente ocupação do seu sítio foi ininterrupta, inicialmente por Visigodos e, posteriormente, pelos Muçulmanos, estes últimos responsáveis pela primitiva fortificação, entre o século VIII e o IX, grandemente ampliada entre o século X e o XII. À época da Reconquista cristã da península Ibérica, após a conquista de Lisboa (1147) pelas forças de D. Afonso Henriques (1112-1185), vieram a cair no mesmo ano Sintra, Almada e Palmela. Na ocasião, as forças muçulmanas que defendiam Palmela, abandonaram-na, indo refugiar-se em Alcácer do Sal. Desse modo, as forças portuguesas apenas se assenhorearam da povoação e seus domínios. As forças muçulmanas, entretanto, logo se reorganizaram, recuperando a margem sul do rio Tejo. Os cristãos reconquistaram Palmela em 1158. Novamente perdida, foi definitivamente conquistada pelo soberano em 24 de Junho de 1165. A partir do ano seguinte foram-lhe empreendidas obras de reforço. Com a subida de D. Sancho I (1185-1211) ao trono, a povoação e seus domínios foram doados pelo soberano à Ordem de Santiago da Espada, juntamente com Almada e Alcácer do Sal (1186), época em que Palmela recebeu foral, passado pelo seu Mestre. Estas localidades voltariam a cair ante a investida das forças almóadas sob o comando do califa Abu Yusuf Ya'qub al-Mansur, que, após terem reconquistado o Algarve, avançaram para o norte, vindo a arrancar ao domínio português, sucessivamente, o Castelo de Alcácer do Sal, o Castelo de Palmela e o Castelo de Almada (1190-1191). As defesas de Palmela ficaram bastante danificadas na ocasião. Reconquistada, segundo alguns, ainda anteriormente a 1194, ou mais provavelmente em 1205, o soberano determinou-lhe os reparos necessários em suas defesas, confirmando a doação desses domínios aos monges da Ordem, que aí instalaram a sua sede anteriormente a 1210, uma vez que no testamento do soberano, lavrado nesse ano, já são designados como freires de Palmela. Apenas após a Batalha de Navas de Tolosa (1212), em que se registou uma vitória decisiva para os cristãos peninsulares, é que foram reconquistadas as terras perdidas para além das fronteiras que se estendiam do rio Tejo até Évora. D. Afonso III (1248-1279), a 24 de Fevereiro de 1255, confirmou à Ordem de Santiago, nas pessoas de seu Mestre, D. Paio Peres Correia, e de seu comendador, os domínios e castelos doados por D. Sancho I e confirmados por D. Afonso II (1211-1223), a saber: Alcácer do Sal, Palmela, Almada e Arruda. O seu filho e sucessor, D. Dinis (1279-1325), confirmou o Foral à vila (1323), acreditando-se que date desta fase a construção da torre de menagem, em estilo gótico, defendendo a porta principal. Ao final do reinado de D. Fernando (1367-1383), quando do cerco de Lisboa por tropas castelhanas (Março de 1382), os arrabaldes desta vila ao Sul também foram saqueados e incendiados: E tanto se atreveram [as tropas castelhanas], sem achando quem lho contradizer, que foram em batéis pelo rio de Coina acima, e ali saíram em terra, e foram queimar o arrabalde de Palmela, que são dali duas grandes léguas (Fernão Lopes). Com a eclosão da crise de 1383-1385, o Mestre de Santiago, Fernando Afonso de Albuquerque, na Primavera de 1384, deslocou-se até Lisboa em apoio ao Mestre de Avis, então regente por aclamação popular, tendo integrado a segunda embaixada enviada para a Inglaterra. Meses depois, durante o cerco de Lisboa pelos castelhanos, foi no alto das torres do Castelo de Palmela que o Condestável D. Nuno Álvares Pereira, após a vitória na batalha dos Atoleiros (1384), acendeu grandes fogueiras para alertar o Mestre de Avis da sua aproximação, o que, de acordo com o cronista causou grande regozijo entre os sitiados (Fernão Lopes. Crónica de D. João I). Durante o seu reinado, D. João I (1385-1433) procedeu a obras de ampliação e reforço no castelo (1423), determinando ainda a ereção da Igreja e do Convento onde a Ordem de Santiago, emancipada de Castela, se instalará, definitivamente, a partir de 1443. No contexto da conspiração do duque de Viseu contra D. João II (1481-1495), abortada em 1484 com a morte do primeiro às mãos do segundo, um dos conjurados, o bispo de Évora, Garcia de Meneses, foi encarcerado na cisterna do Castelo de Palmela, onde veio a falecer poucos dias após. O episódio, narrado sumáriamente por Rui de Pina e Garcia de Resende, é um pouco mais esclarecedor na crónica deste último: O bispo de Évora, ao tempo da morte do Duque [de Aveiro], estava com a Rainha, e aí o foi chamar, da parte d’el-rei, o capitão Fernão Martins; e em saindo fora, foi logo preso e levado com muita gente e muito recado ao Castelo de Palmela e metido em uma cisterna sem água que está dentro da torre de menagem, onde daí a poucos dias depois faleceu, e dizem que com peçonha. No século XVI, o rei D. Manuel I (1495-1521) outorgou o Foral Novo à vila (1512). Mais tarde, no contexto da Guerra da Sucessão da Espanha, D. Pedro II (1667-1706) determinou modernizar as defesas do castelo, o qual recebeu linhas abaluartadas, adaptando-o ao tiro de artilharia. Ainda no século XVIII, a estrutura do castelo ficou sériamente danificada pelo terramoto de 1755. Ainda assim, manteve-se ocupado pelos freires de Palmela até 1834, com a extinção das Ordens Religiosas em Portugal. Foi então ocupado por um contingente do Exército português, aí tendo nascido o explorador Brito Capelo (1841), filho do comandante da guarnição. O castelo encontra-se classificado como Monumento Nacional por Decreto publicado em 23 de Junho de 1910. As instalações do antigo convento foram requalificadas a partir de 1945 como pousada, integrando, a partir da década de 1970, a rede Pousadas de Portugal. Desde o final do século XX têm tido lugar trabalhos de prospecção arqueológica no recinto do castelo, transformando-se alguns espaços em salas museológicas, àreas de serviços e de comércio. O castelo, na cota de 240 metros acima do nível do mar, apresenta planta poligonal irregular, orgânica, com as muralhas reforçadas por torreões de planta quadrada e circular. A evolução do perímetro defensivo de Palmela pode ser compreendida pelo estudo dessas muralhas, dispostas em três níveis de cercas, sem fossos, separadas por sucessivas barreiras: · a linha interna, remontando aos séculos XII e XIII, compreende à muralha mais antiga, amparada por duas torres cilíndricas e a torre de menagem, na qual se abre uma cisterna. Esta terá sido remodelada no século XIV, tendo a sua estrutura reforçada e a sua altura aumentada, coroada com ameias sigladas. Em seu interior, uma escada de cantaria une os vários pavimentos. · a linha intermediária, erguida no século XV, é composta de muralhas mais robustas onde se inscrevem a praça de armas, a Igreja de Santa Maria (erguida no século XII e reedificada no Renascimento), o Convento e Igreja de Santiago, obras góticas quatrocentistas. · a linha externa, edificada no século XVII, integrada por então modernos baluartes, revelins e tenalhas, visando resistir aos tiros da artilharia. [Fim da transcrição] Do alto do castelo, se vê, de um lado, a cidade de Palmela – e, do outro, a cidade de Setúbal e o mar. Na parte da frente e de trás se vêem plantações de oliveiras. Atrás do castelo se vê o Vale dos Barris. Depois de visitar o castelo, descemos e encontramos a estradinha que percorre o vale. Paramos perto de umas oliveiras para ver as azeitonas no pé. Algumas estavam ainda pequenas, outras já bem grandes. A maioria era azeitona preta, mas dava para ver alguns pés de azeitonas verdes aqui e ali. O tempo estava bom, mas não tão bom que desse para ver Lisboa... Uma das coisas que me chamou a atenção no castelo foi o excelente estado de conservação daquilo que está de pé. Parte dele caiu durante o terremoto de 1755, e, no buraco criado, acabaram construindo um prédio mais recente, onde funciona hoje uma pousada. A outra coisa que me chamou a atenção foi o fato de que não havia portaria, não havia cobrança de entrada, não havia seguranças. Fomos entrando, subindo escadas, entrando em ruínas muito antigas, vendo sítios arqueológicos, e nada de ninguém aparecer. Ficamos ali quase umas duas horas – e ninguém veio nos atender, perguntar alguma coisa, barrar a nossa entrada de algum lugar. Só não tentamos entrar na pousada, porque era obviamente um ambiente privado. Mas no resto, fomos aonde quisemos ir. Tiramos centenas de fotografias. Algumas vou colocar oportunamente no site. De Palmela fomos até Setúbal, andamos pela cidade, e saímos por uma estradinha linda, a beira-mar, que passa pelo Parque Natural da Arrábida. Numa das curvas vi o que me parecia ser uma vila, na beira da água, perto de uns penhascos. Resolvi tentar ir até lá. Já estava desistindo de encontrar a entrada quando vi uma placa indicando “Portinho”. Entramos. A estrada era estreita e, de repente, virou muito estreita e extremamente íngreme, com o mar lá embaixo. Mas continuamos. Lá embaixo, no nível do mar, havia várias casas e dois restaurantes – um fechado, o outro, já em cima da água, aberto, com vários clientes. Resolvemos almoçar ali. Comemos arroz com gambas (camarões). Não chegou a ser um risoto: era mais líquido. Mas muito gostoso. E veio numa quantidade tal que nunca conseguiríamos acabar com a terrina. De lá voltamos para a estradinha e, de lá, fomos até Sesimbra, também na praia, e muito bonitinha – cidade antiga, também. Tudo por esses lados é muito antigo. Voltamos para Lisboa, fomos ao shopping Colombo, para trocar umas roupas que a Sueli havia comprado para os netos, tomamos um café, e voltamos para o hotel. Aqui já recebemos e enviamos e-mail para os filhos, vimos a Patrícia, o Marcelo e o Rubens no Messenger, e estamos nos preparando para a viagem para o Porto, amanhã, dia 7. Ficaremos no Porto até o dia 15, e voltaremos aqui para Lisboa, para este mesmo hotel. Daqui sairemos no dia 17, de manhã, para São Paulo, chegando em São Paulo no mesmo dia, no fim da tarde, pela TAP. Por enquanto, é só. Em Lisboa, 6 de novembro de 2006. Quinto dia em Lisboa: O "fado vadio" no Caldo VerdeÉ domingo, dia 5/11. Começa o horário de verão aí no Brasil (em alguns estados, naturalmente) e, com isso, a diferença de horário entre São Paulo (Campinas, Salto) e Lisboa se reduz a míseras duas horas. O dia começou, mais uma vez, com uma neblina fechada. Pensávamos que teríamos chuva mais uma vez. Levantamos meio tarde, sem saber muito bem o que fazer. Sabíamos que havia um shopping aqui perto. Perguntamos à recepcionista do hotel se ele abria aos domingos – não abria. Mas disse-nos que havia um outro, o Colombo, o maior de Lisboa, que abria. Ele ficava perto do campo do Benfica, não muito longe do hotel (do mesmo lado da cidade). Assim, resolvemos ir para lá, tomar café e decidir o que fazer. Fomos e o shopping é magnífico. Muito grande, tem a maior área de alimentação de qualquer shopping que eu já tenha visto – e com grande variedade. Até restaurante de comida israelita tinha. E não faltavam restaurantes de comida brasileira, de churrasco a feijoada, passando por comida por quilo. Muito bom. Tomamos café da manhã lá e ficamos zanzando – só na enorme Fnac gastamos quase duas horas, lendo, fuçando nos livros. Com isso, passaram-se as horas e resolvemos almoçar. Acabei comprando mais um livro, esse do grande educador protuguês, que representou o país na Comissão Jacques Delor da UNESCO, Roberto Carneiro. Já tive o privilégio de ouvi-lo aí no Brasil. O livro se chama “Fundamentos da Educação e da Aprendizagem: 21 Ensaios para o Século 21”. Pelo que já li, gostei muito. À noitinha fomos levados a uma casa típica de fado (fado chamado “vadio”, que é fado típico, que os portugueses mesmos gostam de ouvir, não o “fado tipo exportação”, mais para consumo turístico. O "fado vadio", segundo meu guia da American Express, é um fado "com maior carga emocional, ... cantado em restaurantes e bares mais humildes"). Quem nos levou foi o Fernando Costa, amigo recém-adquirido aqui em Portugal por intermédio da gentileza de uma grande amiga no Brasil. O Fernando nos levou até o Bairro Alto, parte que parece ser a região mais velha do Centro Histórico de Lisboa. Segundo ele, boa parte dos prédios ali aparentemente foram poupados durante o grande terremoto de 1755. O Bairro Alto consiste de uma série de ruazinhas estreitas, muitas hoje fechadas aos automóveis, íngremes, calçadas com paralelepípedos irrregulares. Fomos meio cedo e rodamos pela área, até que os pés da Sueli reclamaram e nos sentamos numa praça (perto do Elevador da Glória, entre a rua da Misericórdia e a rua Nova da Trindade, perto da Cervejaria Trindade), onde tivemos uma aula de história e geografia de Portugal – à luz de uma belíssima lua cheia. Jogamos conversa fora, rimos, e, quando chegou a hora em que o restaurante abriria (20h), fomos para lá. O restaurante é muito simples, pequeno, apertadinho, mas acolhedor. Chama-se “Caldo Verde”. Entrei num buscador de informações da Web e encontrei várias referências ao restaurante, quando coloquei “fado vadio Lisboa” como palavras-chave de busca. Nossa mesa estava reservada. Um porteiro muito gentil, magro, de terno preto, nos levou até ela – e o restaurante rapidamente se encheu. A música deveria começar às 21h, mas todo mundo iria jantar antes. Trouxeram-nos presunto de parma, queijo, bolinho de bacalhau, um pastelzinho (parecido com risolis) muito gostoso. Pedimos um vinho branco da casa, e os três pedimos bacalhau (que, aqui, é meio parecido com pedir um bife com arroz e batatas aí no Brasil, tão comum é o prato). A comida estava muito boa. Quando estávamos terminando de comer a música começou. Nos instrumentais, dois guitarristas, um de guitarra portuguesa, outro de guitarra clássica (violão). A moça que abriu o show, falando em inglês, começou cantando vários fados. Sua voz era linda, melodiosa, delicada – e os fados não me pareceram aqueles fados mais típicos, meio gritados... Acho que ela era a introdução para ouvidos não muito acostumados ao fado, cuja função era ir acostumando esses ouvidos, gradativamente, para ouvir os fados mais típicos. Gostei muito da voz dela e dos fados que cantou. Se estivesse vendendo um cd dela ali, teria comprado. Mas não estava. Depois dela veio, para nossa surpresa, o porteiro do restaurante. Cantou vários fados, o estilo dos fados era bem diferente: menos tranqüilos, mais saltitantes e gritados, e quase todos eles falando de Portugal, Lisboa, e do próprio fado. Depois houve um intervalinho, em que comemos sobremesa: a Sueli, arroz doce; eu, doce da avó (um doce de nata muito gostoso). O Fernando não quis sobremesa. Depois do intervalo, cantou uma outra mulher, que parecia irmã da primeira. Sua voz não era tão “doce” nem as músicas que cantou tão suaves. Depois dela, voltou a primeira, que, além de mais alguns fados, cantou um bolero, em espanhol, em homenagem a vários espanhóis que havia no local. Canta tão bem em espanhol quanto em português. O bolero que ela cantou, lindo, foi “Piensa en mí”, de María Teresa Lara. Eis a letra, tirada da Internet: Si tienes un hondo penar, piensa en mí!
Piensa en mí cuando sufras,
Piensa en mí cuando sufras, Para terminar, convidaram um “amigo da casa” a cantar uns fados e ele cantou uns quatro ou cinco. Pelo jeito era mais do que um amigo da casa que acontecia estar ali, porque acabou encerrando o show, agradecendo a todos, agradecendo os músicos, os demais cantantes, etc. Já era perto de 23h. Havíamos chegado ao restaurante às 20. Três horas de bom papo, de boa comida, de boa música. Há. quase me esquecia... Na saída o porteiro fadista nos disse que a Fafá de Belém é muito amiga dele e sempre vai ao restaurante quando está em Portugal. Disse ainda que cantam juntos "Nem às paredes confesso"... Ela canta "De quem eu amo" -- e ele continua: "nem às paredes confesso!"... Pode ser que seja verdade. Em todo o caso, é uma boa história. A noite, embora já com neblina, ainda deixava entrever a lua cheia. Caminhamos até a Praça Camões onde pegamos um taxi até o hotel. Porque o local é vedado a carros, havíamos vindo para a cidade de metrô. Deixamos nossos carros (o nosso, alugado, e o do Fernando) no hotel. O tempo colaborou durante o tempo todo e o encontro com o Fernando e a noite no restaurante fez deste o nosso melhor dia em Portugal até agora. (E ao chegar ao hotel, ainda vi no UOL a boa notícia de que o SPFC ganhou do Santos na Vila... Vai, Tricolor! Não deixe escapar esse quarto campeonato brasileiro!!!) Em Lisboa, 5 de novembro de 2006. November 04 Quarto dia em Lisboa: Viagem a ÉvoraHoje, sábado, decidimos ir a Évora de qualquer jeito. Custamos, mais uma vez, achar o caminho da ponte, mas perguntei para um rapaz que foi extremamente gentil e até me desenhou um mapinha do complicado trajeto a ser percorrido para chegar à ponte – que fica numa altura danada, que faz parecer incrível que alguém possa aceder a ela ali naquele ponto. Finalmente, cruzamos o Tejo – em direção, naturalmente, ao “Além Tejo” (escrito Alentejo, aqui). Évora fica uns cento e poucos quilômetros distante de Lisboa, na direção leste, na mesma estrada que se toma para ir para a Espanha, na região de Badajoz. Foi pegar a estrada, e cai um temporal. Não havíamos nem tomado café da manhã ainda, embora já passasse das 11. Paramos num posto de gasolina onde havia um restaurantezinho, comemos alguma coisa, e voltamos para a estrada. Na chuva. Felizmente a estrada (privatizada – Brisa é o nome da companhia) é excelente. Velocidade máxima de 120 km/h. Só paramos na Cidade Velha – murada – de Évora, cidade que há 20 anos foi designada patrimônio mundial pela UNESCO. A cidade é linda – mais do que linda, uma graça. A chuva parou por algum tempo, pudemos andar e fotografar, depois voltou a chover e fomos almoçar. Depois do almoço andamos mais um bocado, na chuva, com guarda-chuva. Valeu a pena. Recomendo. Eis o que a Wikipedia diz sobre o Centro Histórico de Évora: “A cidade-museu de Évora tem raízes que remontam ao tempo do Império Romano. A cidade ainda conserva, em grande parte no seu núcleo central, vestígios de diversas civilizações e culturas: Celtas, Romanos, Árabes, Judeus e Cristãos influenciaram a cultura eborense. Atingiu a sua época dourada no século XV, quando se tornou residência dos reis de Portugal. A qualidade arquitectónica e artística do casario branco ou decorado com azulejos e varandas de ferro forjado, datadas dos séculos XVI a XVXIII, é única. Os monumentos da cidade tiveram também profunda influência na arquitectura portuguesa no Brasil. O Centro Histórico de Évora, formado por ruas estreitas e travessas, pátios e largos, tem uma área de 107 hectares e é claramente demarcado pelas muralhas medievais, com extensão de mais de 3 km. No lado sul da antiga Cerca encontra-se a Praça do Giraldo, da qual divergem as vias principais em estrutura radial.” (http://pt.wikipedia.org/wiki/Centro_Histórico_de_Évora) A muralha da cidade, é bom que se diga, está bastante bem conservada e é muito bonita. Sobre a cidade, em si, eis o que diz a Wikipedia: “Évora é uma cidade portuguesa, capital do Distrito de Évora, e situada na região Alentejo e subregião do Alentejo Central, com cerca de 39 500 habitantes. É sede de um dos maiores municípios de Portugal, com 1 308,25 km² de área e 56 525 habitantes (2001), subdividido em 19 freguesias. O município é limitado a norte pelo município de Arraiolos, a nordeste por Estremoz, a leste pelo Redondo, a sueste por Reguengos de Monsaraz, a sul por Portel, a sudoeste por Viana do Alentejo e a oeste por Montemor-o-Novo. É sede de antiga diocese, sendo metrópole eclesiástica (Arquidiocese de Évora). A cidade teve o nome de Ebora Cerealis durante o império romano, tomando o nome de Liberalitas Julia no tempo do imperador Júlio César, sendo então já uma cidade importante, como o demonstram as ruínas de um templo clássico e os vertígios de muralhas romanas. Conquistada aos Mouros em 1165 por Geraldo Sem Pavor, data em que se restaurou a sua diocese. Foi residência régia durante largos períodos, essencialmente nos reindados de D.João II, D.Manuel I e D.João III. O seu prestígio foi particularmente notável no século XVI, quando foi elevada a metrópole eclesiástica e foi fundada a Universidade de Évora (afecta à Companhia de Jesus), pelo Cardeal Infante D.Henrique, primeiro Arcebispo da cidade. Um rude golpe para Évora foi a extinção da prestigiada instituição universitária, em 1759 (que só seria restaurada cerca de dois séculos depois), na sequência da expulsão dos Jesuítas do país, por ordem do Marquês de Pombal. Évora é testemunho de diversos estilos e corentes estéticas, sendo ao longo do tempo dotada de obras de arte a ponto de ser classificada pela UNESCO, em 1986, como Património Comum da Humanidade.” (http://pt.wikipedia.org/wiki/Évora) Saímos de lá por volta de 17h, e pegamos chuva o caminho quase todo de volta. Felizmente, ao chegar a Lisboa, o tempo abriu e o céu ficou azul, azul. Fiquei aliviado, porque andar na cidade, à noite, com chuva, quando não se a conhece bem, é bastante complicado. Com o carro já me sinto totalmente à vontade. Por falar em chuva, há várias cidades inundadas aqui em Portugal. Agora o jornal da TV mostra que trens (os combóios) estão impedidos de rodar na região de Pombal e Fátima – porque a linha está inundada. Os passageiros estão todos na estação de Pombal. Alguns levados do ponto em que o comboio parou até a estação em “autocarros” (ônibus). Outros preferiram ficar nas “carruagens”. A água parece estar mais de um metro acima dos trilhos. É bom ver que a RTP também, quando entra ao vivo, começa a ter uma série de problemas técnicos... Vamos torcer para a chuva parar. Em Lisboa, 4 de novembro de 2006. Terceiro dia em Lisboa: Nova ida a Estoril, Cascais e SintraSexta-feira, 3 de novembro, com o sol e a chuva brincando de esconde-esconde. Estávamos em dúvida se iríamos para Évora ou, estando o tempo melhor, voltaríamos para Estoril – Cascais – Sintra. Ao sair do hotel resolvemos ir para Évora. Mas tivemos um problema. Rodamos mais de meia hora sem conseguir pegar a ponte que cruza o Tejo e que nos levaria para Évora, no leste do país. Quando, depois de várias tentativas, acabamos na estrada de Cascais, resolvemos ir em frente e tentar nossa sorte por lá de novo. Parecia que, apesar de alguns chuviscos, íamos ter sorte. Paramos em Cascais, estacionamos o carro, e rodamos a pé o centrinho, perto da praia, cheio de restaurantinhos bonitos e agradáveis e de lojas de interesse turístico. Isso por si só valeu o dia. Fomos até a Cidadela (um enorme e antigo forte), mas estava fechada. Pelo jeito vão fazer (ou já fizeram, não estou certo) uma concessão da Cidadela para a iniciativa privada, para exploração turística (restaurantes, lojas, etc.) e, por isso, estava tudo fechado para reforma. Andamos mais um pouco, rodamos outro tanto de carro, e fomos para Sintra. Lá descemos, andamos um pouco, e começou a chover. Resolvemos comer alguma coisa. Ao terminar, parecia que a chuva havia parado e, assim, resolvemos ir ao topo da montanha visitar o Palácio Nacional. Nunca vi uma estrada tão estreita e tão íngreme. Quando chegamos lá, a chuva despencou. Ficamos no carro um tempo, esperando a chuva parar, mas nada disso. Assim, descemos, por uma outra estradinha igualmente estreita e tortuosa... Rodamos um pouco e voltamos para Cascais, para fugir da chuva no Shopping Cascais (pelo segundo dia seguido). A Sueli queria comprar umas lembranças para os filhos e netos e eu me enfurnei na Fnac, onde peguei o último livro da Isabel Allende (Inés del Alma Mía) e fiquei lendo (acabei comprando o livro – já resolvemos que vamos comprar uma outra mala, pequena, para levar as coisas que compramos na viagem). Tomei um café com um pastel de nata. Depois de uma hora e meia, mais ou menos, a Sueli voltou, também tomou um café com um pastel de nata, e voltamos para Lisboa. Chegamos aqui por volta de 19h. Ainda saímos para comer um lanche num “mallzinho” aqui perto. Aproveitei para comprar remédio para a tosse e para a gripe. E assim foi a manhã, e a tarde, do nosso terceiro dia em Lisboa. Em Lisboa, 3 de novembro de 2006 November 02 Segundo dia em Lisboa: Ida a Estoril, Cascais e SintraQuinta-feira, dia 2 de Novembro, Dia de Finados – aí e aqui. Choveu o dia inteiro aqui. Hoje nos levantamos e fomos direto para o aeroporto, onde iria retirar o carro que havia reservado. Na hora de sair do hotel para pegar o taxi, desabou uma chuva daquelas. Chegamos ao aeroporto sob chuva. Encontramos tudo como esperado na Avis e, depois de tomar café no aeroporto mesmo, saímos de lá com um Seat Leon 1.4 Spirit 2006 – retirado da fábrica há 4 meses. Tem computador de bordo, cd player com mp3, etc. Perfeito. Do aeroporto atravessamos a cidade, que tem cerca de dois milhões de habitantes, pela av. Gago Coutinho, e pegamos a estrada beira-rio / beira-mar para Estoril, Cascais e Sintra. Em dia de chuva, a gente pelo menos vê paisagem bonita. Não sei quão familiarizados vocês estão com a geografia ao redor de Lisboa. Eu não estava nada. Por isso, vou explicar um pouco. Lisboa não fica exatamente no mar: fica às margens do Rio Tejo exatamente em sua foz – no ponto em que o Tejo está chegando ao mar e, portanto, está sendo invadido pelo mar, em especial na maré alta. Ao passar por Lisboa o Tejo já está quase virando um delta. Ele ainda dá uma estreitadinha, num local que aproveitaram para fazer uma enorme, alta e linda ponte, e depois se mistura com o mar. Se a gente estiver na famosa Praça do Commercio, que fica às margens do rio e é considerada a “porta de Lisboa”, sendo hoje a sede de vários órgãos governamentais, mas tendo sido o local onde o Palácio Real ficou por muito tempo (até ser destruído pelo terremoto de 1755), e seguir dali na direçao sul, margeando o rio, vai, no devido tempo (cerca de 30 minutos), passar por Estoril e chegar a Cascais. A estrada beira-mar Lisboa-Cascais tem a designação N6. (Há várias outras maneiras de ir de Lisboa a Cascais sem ser pela beira do rio e do mar). De Cascais pode-se, em poucos minutos, ir até Sintra, que não fica a beira-mar. As três cidades for um trio de cidades muito bonitas que todo visitante a Lisboa deseja visitar. Em Estoril há cassinos e o autódromo em que tem lugar o Grand Prix de Formula 1 de Portugal. Na verdade, pelo que me pareceu, o autódromo fica em Cascais – mas o nome do autódromo é Estoril. Por alguma razão que algum doutorando em história poderia um dia investigar, Estoril foi durante muito tempo local de exílio para muitos monarcas europeus. Além de várias mansões, há por ali vários hotéis luxuosos e restaurantes da melhor qualidade. Sintra eu achei linda, andando de carro. É uma cidade de altos e baixos, morros e vales, cheia de becos estreitos, com descidas e subidas assustadoras, casas antiqüíssimas, castelos pequenos, mosteiros, conventos, etc.... Fiquei imaginando o que faria se encontrasse um carro vindo em direção contrária (por erro dele ou meu) num desses becos longos... Andar de marcha-a-ré nas subidas e descidas cheias de curvas exigiria a habilidade de um Schumacher... e olhem lá: andando a 20 km/h... Ainda vamos voltar lá, achar um lugar para estacionar o carro, e andar pelo centrinho histórico, quando o tempo estiver bom. Se Estoril foi local de exílio de monarcas europeus, Sintra era o local de veraneio favorito dos monarcas portugueses. O Palácio Nacionald de Sintra está lá para dar prova disso. A cidade foi declarada Patrimônio Mundial pela UNESCO em 1995. Mas a cidade mais interessante das três certamente é Cascais, que possui belas praias, lindas quintas, restaurantes, bares, hotéis, etc. E, acima de tudo, charme, carisma... Cidades têm isso também, já o disse aqui. No fim do século XIX Cascais era o balneário europeu da moda. Ainda hoje continua a uma cidade muito badalada. Em Cascais paramos em um shopping bastante bonito, cheio de lojas chiques, livrarias (inclusive uma maravilhosa Fnac) e excelentes lugares para almoçar barato. Antes do almoço passamos umas duas horas na Fnac (estava chovendo lá fora), e acabei comprando três CDs duplos (seis CDs, na realidade) da Amália Rodrigues, com todos os maiores sucessos dela... São tantas músicas que tenho certeza de que incluíram menores sucessos e até mesmo não-sucessos para preencher os CDs... Mas há ali Lisboa Antiga, Coimbra, Foi Deus, Nem às Paredes Confesso, Ai Mouraria, Maria Lisboa, Uma Casa Portuguesa, etc. Coisa linda, linda. Ao voltar para o carro já colocamos os CDs para tocar. (O site http://www.amaliarodrigues.lisbon52.com/Fados/FadosMenue.htm permite que a gente ouça algumas das músicas e até mesmo tenha acesso à letra de algumas delas. Não percam.) Comemos bacalhau de novo... Eu disse que iria encher a cara de bacalhau. Este veio com batatas ao murro, alho, azeite de oliva e foi acompanhado por salada (com mais azeite de oliva). Prato pesado. Ainda estou sentindo o gosto do bacalhau (especialmente por causa do alho) quase 10 horas depois... Chegamos de volta a Lisboa na hora do rush, já escuro, e chovendo – e eu, muito confiante, me perdi. Não me perdi feio – sabia que estava na vizinhança do hotel, mas não conseguia localizar nada familiar, e não havia um bendito posto de gasolina para a gente parar. Finalmente, identificamos um prédio alto, um outro hotel (desgraçadamente chamado Corinthia Lisboa...), que fica perto do nosso. Fomos no rumo, ainda nos perdemos mais uma vez, mas acabamos chegando lá – e de lá foi fácil chegar até o nosso hotel. Mas passamos um bom tempo passeando por Lisboa, à noitinha, na chuva... Não decidimos ainda o que faremos amanhã. Só vamos voltar ao centrinho de Lisboa quando o dia estiver bastante bom. Estou com os mapas e os guias aqui do lado para estudar ainda hoje. Hoje vou dormir tarde, porque preciso esperar o resultado do jogo do SPFC... Em Lisboa, 2 de Novembro de 2006 November 01 Primeiro dia em Lisboa: Jogando tempo fora na Baixa e no ChiadoChegamos a Lisboa hoje, dia 1/11, quarta-feira, e, aqui, feriado – Dia de Todos os Santos. Pelo que parece, estamos em casa: feriados religiosos – até em dias em que, no Brasil, não é mais feriado. A estação de Santa Apolônia, a mais antiga, bem no centrinho antigo da cidade – na realidade, ao lado do mar – é bastante simples e pobre. Nada da pujança das estações de Paris aqui. Saímos, encontramos um taxi (havia inúmeros), e tocamos para o hotel. Ficou barato: um pouco mais de sete Euros. O hotel é excelente, fica perto de uma estação do metrô, numa área nova, cheia de hotéis, com shoppings, etc. Hoje a região estava meio parada por causa do feriado. No entanto, como o Zoológico não fica muito longe, havia gente circulando por ali. Pegamos o metrô, linha azul, e rumamos para o centro da cidade: estação Baixa-Chiado. Eu disse que os nomes aqui parecem estranhos a nós. Outras estações do metrô têm nomes como Olivais, Ameixoeira, Odivelas, Senhor Roubado, Arroios, Restauradores, etc. Por outro lado, se alguém daqui for a São Paulo terá que se deparar com nomes de estações de metrô como Anhangabaú, Tucuruvi, Carandiru, Corinthians... Até uma estação chamada Portuguesa temos! Saímos da estação Baixa-Chiado aparentemente pelo lado errado, pela Praça Camões, deserta. Aos poucos fomos descobrindo o caminho para o centrinho, que começa na Praça do Commercio. Chamou-nos a atenção o fato de que os prédios antigos, muitos dos quais bastante bonitos, estão muito mal conservados. Além de haver fios aéreos passando por todo lado, há, em não poucos casos, roupas penduradas nas janelas de apartamentos e outras feiúras assim das quais nos havíamos facilmente desacostumado. Ao caminhar na direção da Praça do Commercio começamos ver mais e mais pessoas (a maioria homens) vestidos com camisetas verdes e brancas, andando com copos de plástico de 750 ml de cerveja na mão, gritando e cantando. Viemos a descobrir que são torcedores do Celtics Football Club da Escócia, que estavam na cidade para torcer pelo time, que, mais tarde, iria jogar contra o Benfica pela Copa dos Campeões da Europa. Quanto mais chegávamos ao centrinho da cidade, mais encontrávamos desses personagens detestáveis, bagunceiros. Parece a nossa sina. Quando chegamos a Praga, no dia 28/9, era também feriado local e o time local, ou um dos times locais, iria jogar contra um outro time, que parecia também ser das Ilhas Britânicas. Havia multidões de homens bebendo, cantando, fazendo bagunça – muitos deles com as tradicionais saias escocesas. Nunca consegui saber qual era o time para o qual eles torciam. Aqui, fiquei sabendo logo – embora o garçon do restaurante nos tenha dito que eles eram suecos. Fez confusão. Compreensível. Por falar em restaurante, custamos a achar um, porque todos haviam sido invadidos pela horde de bárbaros. Por fim, encontramos um, que tinha mesas nas calçadas, um andar térreo e um primeiro andar. O primeiro andar estava sem gente de verde e branco. E por falar em garçon, o menu ou o cardápio do restaurante aqui é chamado de ementa. Quando nos sentamos, o garçom nos perguntou em que língua queríamos a ementa... Comemos bacalhau à moda da casa – assado, servido com purê de batatas. A casa, por sinal, se chama “Cervejaria Concha d’Ouro”. O garçon nos perguntou se queríamos, antes do almoço, alguma entrada, coisa assim. Olhamos a ementa – e havia uma seção chamada “Couvert”, que listava, literalmente, o seguinte: Pãozinho: 0,40 Euro Cesto de pãezinhos torrados: 0,75 Euro Manteiga: 0,50 Euro Patês: 1,00 Euro Azeitonas: 1,00 Euro E assim vai. Aqui, pelo jeito, você compõe o seu couvert. Sai mais em conta. Pedimos um cesto de pãezinhos torrados, patê de sardinha e azeitonas. Estava gostoso. (Não pretendo usar essas crônicas para contar piadas de português, mas o nível de detalhe da ementa do restaurante me fez lembrar da história da padaria, em que o pãozinho com manteiga custava 40 centavos, o pãozinho com margarina, 35 centavos, o pãozinho sem manteiga, 30 centavos e o pãozinho sem margarina, 25 centavos. Algo assim.) A cerveja, bem mais barata aqui do que em Paris (qualquer outra cidade do mundo provavelmente é mais barata do que Paris). A cerveja grande, de 400 ml, 1,80 Euros. A mesma pela qual chegamos a pagar 8,50 Euros em Paris. O bacalhau veio e estava delicioso. Só que veio demais. Poderíamos ter pedido apenas uma porção e teria dado para os dois. Da próxima vez, provavelmente, vamos pedir uma porção só e vai faltar... Em todo caso, o preço total das duas porções de bacalhau saiu pelo preço de uma só porção de qualquer coisa em um restaurante parisiense: 20 Euros. Do restaurante fomos até a Praça Dom Pedro V, onde fica o Teatro Nacional Dona Maria II. Estava uma bagunça total: havia sido ocupadas pelos bárbaros. Um chafariz lindo jorrava espuma: devem ter colocado sabão em pó na água. Não se podia ver a água porque, além da espuma, haviam enchido a base do chafariz com garrafas vazias de cerveja. No chão havia garrafas de cerveja, inteiras e quebradas, copos de plástico, papel... E os bárbaros bebendo e cantando. Não sei em que estado eles iriam estar na hora do jogo. Ali na hora decidi que iria torcer pelo Benfica – que, como vim a saber faz pouco, pela Internet, ganhou o jogo por 3 x 0. Menos mal. Os bárbaros vão ter de retornar para a Escócia com a ressaca da bebida e da derrota. Enfim: nosso primeiro dia em Lisboa nos revelou um centrinho velho, requerendo um pouco mais de conservação e cuidado. Quem sabe se, tivéssemos nós começado nossa viagem por aqui, viéssemos a ter uma impressão melhor da cidade velha. Mas ver o estado de desconservação e descuidado com relíquias preciosas aqui em Lisboa depois de nos termos mal-acostumado com Paris, Viena, Praga, para não falar em cidades menores como Salzburg, Innsbruck, Augsburg, Heidelberg, etc., deixa a gente meio triste. Fiquei pensando, com os meus botões, como é que o turista português veria uma cidade como São Paulo? Se o levarmos para a Avenida Paulista, a Avenida Faria Lima, ou a Vila Madalena, ou o Itaim-Bibi, terá uma impressão. Se o colocarmos no Parque Dom Pedro, de frente para aqueles edifícios horrorosos da Av. do Estado, em frente ao Mercado Municipal, provavelmente vai querer voltar correndo para Portugal. Se o colocarmos na Favela do Heliópolis, então... Precisamos começar a olhar as nossas cidades com olhos de turistas... Faz bem. Em Lisboa, 1 de novembro de 2006 Viagem Irún – LisboaDepois de pararmos em Bordeaux, ontem à noite, quando fizemos nosso lanchinho, paramos ainda em Dax. Depois de Dax achei estranho que o trem começasse a andar muito devagar. Fiquei imaginando que, ao chegar perto da Espanha, nosso TGV houvesse se tornado um TPV – Train à Petite Vitesse... Daí veio a notícia. O trem estava andando assim devagar porque havia acontecido um grave acidente na estação de Hendaye, mais à frente, e que, por causa disso, o trem só iria até Biarritz – que seria a estação depois de Bayonne, a próxima. Em Biarritz seríamos todos colocados em “autobusses” e levados para Irún – que é uma cidade irmã de Hendaye – esta na França, aquela na Espanha. Perguntei, imediatamente, quanto tempo levaria o ônibus para ir de Biarritz até Irún – e a resposta foi “cerca de três quartos de hora”. Nosso tempo para baldeação em Irún era de 38 minutos: chegaríamos às 21h22 e sairíamos às 22h. Ia ser apertado – especialmente com o trem andando assim devagar. (Acabamos de parar em Coimbra-B. Será que há uma Coimbra-A?) Finalmente chegamos a Biarritz, e foi o caos total. Havia gente que iria ficar em Irún – estes foram colocados num ônibus. Havia gente que iria fazer baldeação em Irún e seguir para outras cidades da Espanha – estes foram colocados em outros ônibus. E havia gente, como nós, que faríamos baldeação para um outro país – Portugal, acredito, era o único candidato. Foi uma bagunça. Colocamos nossas malas no bagageiro do ônibus destinado a nós, que rapidamente encheu – deixando gente de fora. Na verdade, nem sei o que fizeram com quem sobrou. Assim que nosso ônibus encheu, pressionamos a moça que cuidava das operações para nos despachar, e ela o fez. Chegamos à estação de Irún às 21h40. O trem estava na última plataforma. Teríamos de descer uma escada e depois subir outra – com malas... Felizmente achei um elevador, que funcionou, e que nos levou para o túnel das plataformas, embaixo, e outro elevador, do lado oposto, que nos levou de volta para cima, felizmente para a plataforma certa. Mas havia uma corda fazendo com que todo mundo que chegava à plataforma entrasse na parte principal da estação. Ali havia seguranças fazendo Raio X das malas. Não quiseram aceitar nossas malas até que passássemos pelo guichê. Fui ao guichê, havia uma fila grande, que não andava – caos total. Voltei e disse ao responsável pela segurança – felizmente todos começaram a falar em português, misteriosamente, apesar de estarmos na fronteira da França com a Espanha (o trem era português, eu não sabia) – que já tínhamos bilhete, que estávamos vindo de Paris, etc. etc. e ele nos deixou passar. O jeitinho começava a funcionar... Nosso vagão, o carro leito, era o primeiro. Fomos até o início do trem, apresentamos nosso bilhete, que felizmente foi aceito sem problema (não faltava carimbo, nada assim) e fomos encaminhados para a cabine com os leitos 41 e 45 – os nossos. Tudo funcionou direitinho. Assim que ajeitamos nossas malas dentro da cabine – uma ginástica, creiam-me – o trem partiu. Eram 22h03. Acredito que muita gente o perdeu. Não deram colher de chá atrasando o trem em nada, apesar do acidente. Na realidade, o responsável pelos vagão leito e pelo carro restaurante nem sabia que havia acontecido um acidente na estação ali da cidade ao lado. Arrumamos nossas coisas na cabine e fomos jantar. A comida foi boa, mas simples. Não havia escolha: era algo parecido com um “plat du jour” – mas o ambiente era bem arrumadinho. Serviram-nos um aperitivo – um vinho com gosto parecido de vinho do Porto, mas vinha de outro lugar. Depois veio uma sopa de fubá, bem quente, gostosa, e, como prato principal, carne com batatas e brócolis. Como sobremesa, rocambole e café. E ainda nos deram frutas, que a Sueli trouxe para o quarto: uma banana e uma maçã. Dormir na cabine exigiu um pouco de adaptação e boa vontade. Fiquei tentando me lembrar de quando foi a última vez que dormi numa cabine de leito de um trem. Certamente quando criança dormi várias vezes, no Expresso Ouro Verde, da Sorocabana, que operava entre São Paulo e Ourinhos. Depois de adulto, lembro-me de uma única vez, creio que foi no início de 1962, quando, voltando de Presidente Prudente para Jandira, resolvi pagar um leito. Vim sozinho na cabine – numa viagem que, naquela época, durou nada menos do que 15 horas. Mas, depois disso, nunca mais. A adaptação de que falei vai por conta da estreiteza da cama. Eu fiquei na cama de cima, a Sueli na de baixo. Cair ali de cima iria significar problema sério. Felizmente, dormi sem cair... A segunda coisa que exige adaptação é o balanço. O trem sacode um bocado. Você tem a nítida impressão de que os seus órgãos internos estão sacudindo dentro de você. A terceira coisa é o barulho. Aquele ruído ritmado das rodas nos trilhos até que é gostoso, no início, mas quando você está tentando dormir aquilo pode facilmente distrair sua atenção... Mas finalmente dormimos. Acordei por volta das 7 da manhã, com o trem parado. Era a fronteira entre Espanha e Portugal. O trem ficou parado um bom tempo. Perguntei ao chefe do trem se já estávamos em Portugal, e ele disse que sim – o que significava que deveríamos voltar nosso relógio uma hora, para ficarmos exatamente no chamado “Universal Time” (GMT=0). O café ainda não estava servido no restaurante. Voltei para a cabine, fechei a cama de cima, nos arrumamos na cama de baixo, e cochilamos por mais uma hora. Daí nos levantamos, lavamos o rosto (há uma pia na cabine), e fomos tomar café. O menu consistiu de suco de laranja, café com leite, torrada e croissants – e, naturalmente, manteiga e geléias. Tomamos café e, ao pedir a conta, fomos informados de que estava incluído no bilhete do leito. Nada mau. De vez em quando a gente tem uma surpresa agradável. O jantar, porém, não estava incluído: ficou em 40 Euros, total, tudo incluso – razoável, porque, além do aperitivo, tomamos cerveja. Agora estamos parados em um lugar chamado Alfarelos, perto de Coimbra. Disseram-nos que vamos chegar na hora – um pouquinho antes das 11h. Na verdade, o bilhete diz que será às 10h53, na Estação Santa Apolônia de Lisboa. A paisagem lá fora oscila entre bonita e, de vez em quando, árida e pedregosa. Já passamos por várias cidadezinhas com nomes esquisitos (mais incomuns, talvez, do que esquisitos). Agora acabamos de parar em Pombal, que parece ser uma cidade maior. Muitas obras nas cercanias da estação do trem. Estamos na reta final da viagem de trem. Vou sentir falta. Hoje, 1 de novembro, é o último dia de validade de nosso Eurail Pass. Amanhã devo pegar o carro que reservei na Avis. Daqui para frente, viajaremos de carro. Felizmente melhorei do resfriado. Quase não tossi à noite e meus olhos e meu nariz estão funcionando de maneira quase normal. Um alívio. Espero não ter nenhuma recaída. Espero ter um acesso decente e não muito caro à Internet aqui em Portugal. Mas, como costumava dizer meu orientador de doutorado, o Bill Bartley, “hope for everything but expect nothing”. Até mais tarde. Entre Irún (Espanha) e Lisboa (Portugal), em 1 de novembro de 2006 (já em território português, chegando perto de Lisboa). Viagem Paris – Irún (indo na direção de Lisboa)Escrevo no trem – no TGV que nos leva de Paris a Irún, cidade que fica na fronteira entre a França e a Espanha, bem no nordeste da Espanha. (Se a Espanha fosse o Brasil, Irún ficaria onde está Natal no Brasil). Saímos de Paris às 15h50. São, no momento, 18h10. Devemos chegar em Irún às 21h20. Ao todo, 5 horas e meia neste primeiro trecho da viagem. Em Irún pegaremos um outro trem, às 22h, que nos levará de Irún até Lisboa, onde chegaremos amanhã depois das 10h da manhã. Nesse outro trem temos reservada uma cabine leito. Preciso ver se encontro umas vodkas ou alguns cognacs para poder dormir bem... (Esse trem de Irún a Lisboa será o último trem que pegamos com malas na Europa. Vocês não imaginam como fico aliviado.) Este trem, apesar de estar rodando há cerca de 2 horas e 20 minutos, ainda não parou. Pelo jeito sua primeira parada vai ser em Bordeaux. Já passamos por Tours, Poitier e Angoulême (que eu tenha visto), mas sem parar. A Sueli cochila, depois de ter lido um pouco do livro do Jô Soares. Eu já li um pouco também (o livro sobre a lógica totalitária na Europa) e resolvi escrever, para ver se, escrevendo, esqueço um pouco de tossir. A minha gripe persiste forte, mas às custas de muito Benegripe os olhos e o nariz melhoraram. Só ficou uma tosse feia, grossa, pesada, que deve assustar as pessoas que estão próximas de mim... Quando eu era criança a minha mãe chamava esse tipo de tosse de “tosse de cachorro louco”. Nunca soube que cachorro louco tossisse, quanto mais assim, mas vai... Estamos num compartimento de primeira classe que tem quatro poltronas. A Sueli e eu ocupamos as que estão perto da porta, e uma senhora e sua filha, adolescente de provavelmente uns 14 ou 15 anos, ocupam as poltronas que ficam perto da janela. A mulher já leu, a menina já estudou geografia, já leu uma revista de fofocas, e, agora, faz palavras cruzadas. Engraçadinha ela (a menina): bonitinha e delicada. Daqui a pouco terei de acordar a Sueli para comermos alguma coisa. Antes de sair do hotel, fizemos um almoço leve. A Sueli comeu um risoto de frango e eu uma salada – tudo acompanhado por aquele incomparável pão francês, de casca bem dura, todo coberto de farinha de trigo, que deixa a roupa da gente um desastre. Espero que em Portugal encontremos cerveja mais barata do que em Paris. Em Paris, em restaurante ou café, uma cerveja de 500 ml (dois terços de uma garrafa, portanto) nos custou, em média, 8 euros. Duas dessas cervejas, durante um almoço, já nos ficavam por perto de 50 reais. Um absurdo. A cerveja vem em uns copos (seria coparra o aumentativo de copo?) decorados em que se afirma que a cervejaria que a produz vem fazendo cerveja desde – sei lá – 1164. Mas a idade de uma cervejaria não justifica tanto abuso no preço. Acredito que em Portugal a comida e a bebida vão ser mais baratas – e, possivelmente, mais gostosas. Quero comer bacalhau até não agüentar mais. E não vou deixar de tomar vinho do Porto, em todas as suas variedades. (No avião da TAP, indo de Lisboa para Praga, tomei vinho do Porto verde – não só não-maduro, mas literalmente de cor verde). Lembro-me de um bacalhau fenomenal que comi, faz um ano e pouco, em Macau – antiga possessão portuguesa na Ásia, hoje devolvida à China. A devolução se deu apenas em 1996. Mas os portugueses parecem ter sumido de lá. Foi só depois de muito procurar que encontrei um restaurante, no antigo Clube Militar – hoje um clube privado, não militar – onde se servia comida típica portuguesa e se vendia um bom vinho português. Rumei para lá. O restaurante foi tudo que me haviam prometido e mais alguma coisa. O prédio, cor de rosa, tinha um salão alto, com aquelas janelas antigas, também muito altas, e tinha aqueles ventiladores de teto. Parecia uma cena de um filme inglês descrevendo um clube militar na Índia, quando a Índia era ainda possessão inglesa. Pedi bacalhau com arroz, legumes e “batatas ao murro” – uma batata cozida em que aparentemente se dá um murrinho para que ele fique meio amassada... Pedi um vinho verde português, que o maître me recomendou, e fiquei umas duas horas comendo ali. A porção servida foi mais do que generosa. O pão, que a acompanhou, era delicioso, fresco, crispy. O vinho estava ótimo. Tinha umas coisas sobre Macau para ler e, então, aproveitei o tempo para comer com calma, degustando a comida, e registrando na alma cada minuto daquela experiência. Mais ao final, conversei um pouco com o maître, que era das Filipinas, mas falava português e espanhol. Ele me contou um pouco da história do clube depois da transferência da ilha para a China. Um grupo de pessoas, antes de se efetivar a transferência, comprou o clube da associação dos militares portugueses que serviam em Macau – os quais, imagino, esperavam voltar para a terrinha. Os novos proprietários fizeram do clube um clube de lazer, colocaram lá dentro um museu da colonização portuguesa, e, naturalmente, mantiveram o restaurante, com as mesas características que sempre havia tido. Sábia decisão. Se alguém que estiver lendo for um dia a Macau, recomendo o restaurante do antigo Clube Militar. À medida que progredimos na direção de Irún, me dou conta de que nunca havia ouvido falar dessa cidade. Deve ser uma daquelas cidadezinhas cujo mérito maior é estar bem na fronteira. Assim, o trem que vem de Paris, termina ali – e ali começam os trens que vão para o resto da Espanha ou para Portugal. Depois de Portugal, não há mais para onde ir... Segundo alguns autores, Portugal sofreu a influência da geografia. Um país pequenino, com uma Espanha grande e poderosa ao norte e ao leste. Mais adiante, ao norte, uma Inglaterra grande e poderosa. Mas adiante, ao leste, uma França belicosa. Assim, o destino de Portugal só poderia ser se aventurar pelo mar para ver se encontrava melhor sorte do que a que lhe reservavam seus vizinhos mais próximos. Portugal foi procurar encontrar seu “nicho”. Por um bom tempo, encontrou-o. Descobriu o caminho das Índias, passando pela costa oeste da África, dobrou o cabo da Boa Esperança, conquistou países africanos e uma grande quantidade de ilhas no processo, que falam português até hoje (Goa, por exemplo). Numa dessas viagens, deu zebra e descobriram o Brasil... Quando começavam a explorar economicamente a colônia recém descoberta, foram conquistados pela Espanha, e viveram – vivemos nós – sob o domínio espanhol de 1580 a 1640. O tempo todo havia alguém querendo botar as mãos nos domínios portugueses na América: os franceses e os holandeses acabaram ficando um tempo no Brasil. Por falar nos franceses no Brasil há, em Paris, ao lado do Louvre, um templo protestante em que há um monumento ao Almirante Coligny, huguenote, que esteve envolvido na tentativa de conquista do Brasil empreendida por Villegagnon. Coligny foi assassinado durante o Massacre de São Bartolomeu (dia 24 de agosto de 1572), em que os católicos tentaram varrer os protestantes da face da França. Meu pai, quando era seminarista em Campinas, nos anos 30, escreveu uma tese sobre o Massacre de São Bartolomeu. A descrição, inflamada, com uma retórica pesada, deixava passar o ódio que sentia pelos católicos. Ele admirava o Almirante Coligny. Pelo jeito não estava sozinho. O monumento em honra de Coligny ali no centrinho de Paris realmente impressiona. Bom, o trem parece que finalmente vai parar. Assim, também vou parar. Depois volto. Antes vou comer alguma coisa. A Sueli acordou pedindo comida. o O o Já paramos em Bordeaux, já comemos um sanduíche (un Parisien, uma baguete com salame e queijo), a Sueli tomou uma Coca light e eu uma cerveja, e eis-nos aqui na segunda metade da primeira metade de nossa viagem de Paris a Lisboa. São agora 19h10. Numa das mensagens anteriores eu comentei o quanto a gente aprende de história apenas viajando. Agora gostaria de corroborar um pouco esse comentário – como se fosse necessário apresentar muita corroboração. Na República Tcheca aprendi muita coisa da história antiga e mais recente do país – que até bem pouco tempo formava um só país com a Eslováquia: a Tcheco-eslováquia. Aprendi – ou reaprendi – que a República Tcheca se divide em duas grandes regiões, a Bohemia e a Morávia, e que fez parte do Império dos Habsburgs, tendo, portanto, sido governada por Franz Joseph I e Sissi. Na Áustria aprendi horrores sobre a história da Europa, em especial sobre a história do Império Austro-Húngaro, governado pelos Habsburgs. Franz Joseph I casou-se com Sissi, sua prima, então duquesa da Bavária – cuja capital era Munique. Foi pelo charme dela e pelo interesse que demonstrou pela Hungria que ambos se tornaram Rei e Rainha da Hungria, tornando a Hungria uma monarquia no mesmo pé que a monarquia da Áustria. Na Áustria vi os palácios dos Habsburgs (os Hofburgs), tanto em Viena como em Innsbruck. Mas eles tinham palácios por todos os cantos, inclusive em Salzburg. Visitamos Saint Wolfgang, a linda cidadezinha às margens do Wolfgangsee em que morava a “amiga” de Franz Joseph I, que lhe foi arrumada por sua própria mulher, Sissi. Em Untenwittelsbach, na Bavária (em Augsburg) visitamos o castelo da família da Sissi – que passou para a história como o castelo dela. No centro de Augsburg, visitamos igrejas que foram parte viva da história da reforma protestante, que hoje está perto de comemorar 500 anos – espero estar vivo até lá. Em Genebra, pude refrescar na minha memória boa parte da história da Reforma calvinista. Lá comprei o livro sobre Pierre Bayle, no Musée International de la Reforme. Em Paris, há história por todo lado. Agora estamos indo para Portugal. O país, mesmo sem que eu o conheça, é parte da minha história. Meus antepassados do lado paterno provelmente foram para o Brasil da região de Chaves, ao nordeste do Porto. Não sei de onde partiram os meus antepassados do lado materno da família. Só que sei que os pais de meu avô materno se chamavam Joaquim e Maria e os pais de minha avó materna também se chamavam Joaquim e Maria... É preciso prova maior de que sou descendente de portugueses? Tudo isso terá agora que sedimentar na memória, ser trabalhado, ser suplementado com pesquisas na Internet, ser objeto de crônicas como esta que escrevo aqui. Fico imaginando a salada que são meus netos. Vejamos primeiro o Marcelo. A Patrícia, mãe dele, minha filha mais nova, é descendente minha e da Sueli. Da minha parte, tudo sangue português, pelo que parece: dos Chaves e dos Oliveira (pelo lado paterno), dos Campos e dos Godoy (pelo lado materno). Do lado da Sueli, há sangue índio (Atibaia) e italiano (Galli), pelo lado paterno, e português (Pavão), pelo lado materno. O filho da Patrícia, o Marcelo, é filho dela, e, portanto, carrega toda essa carga genética, e é filho do Rubens, marido dela, que tem como sobrenome Frota de Moraes Salles – fato que indica que sua ascendência e portuguesa também. O nome inteiro do Marcelo é Marcelo Chaves de Moraes Salles – nome imponente, como, de resto, é o nome da maioria dos meus netos, como vocês vão ver. O irmãozinho do Marcelo, nascido antes dele, mas que morreu com apenas uma semana, era Guilherme Chaves de Moraes Salles. No caso da Olivia e da Madeline, filhas de minha outra filha, Andrea, que mora nos Estados Unidos, e é casada com americano, há, do lado da mãe, em parte a mesma carga genética da Patrícia. Mas a mãe da Andrea, a Maria Luiza, minha primeira mulher, é descendente de portugueses (Pinto de Oliveira) e de Italianos (Vignado). O marido da Andrea, o Richard, por seu lado, traz toda uma outra vertente para a minha descendência... Ele nasceu em Medina, Ohio. Os nomes das meninas, infelizmente, não têm o Chaves (guardo essa mágoa até hoje...). São: Olivia Grace Mathews e Madeline Kay Mathews. A Olivia adora dizer, para irritação do pai dela, mas para deleite meu, que o nome inteiro dela é Olivia Grace Mathews Chaves Kuzsmaul – o último nome sendo do atual marido da Maria Luiza. No caso do Gabriel, que é meu primeiro neto, mas não é neto de sangue, a mãe dele, Tatiana, a filha da Sueli e do Toninho, primeiro marido da Sueli, tem, naturalmente, a carga genética da Sueli e a do Toninho – que era filho de espanhol com brasileira. O pai do Gabriel, porém, o Alexandre, é Montgomery Wild – Montgomery, por parte de mãe (a Mary), com raízes inglesas, e Wild por parte de pai (o Ernesto), com raízes alemães. Assim, o Gabriel carrega um nome com referências a pelo menos três nacionalidaes: Gabriel Romero Montgomery Wild. Os filhos do Rodrigo, a Gabriela e o Felipe, que também não são meus netos de sangue, são descendentes da Sueli e do Toninho, pelo lado paterno, e do David e da Vera, pelo lado da mãe, a Adriana. Creio que tanto o David e Vera tenham ascendência portuguesa – são Tavares. Gabriela Tavares Romero e Felipe Tavares Romero. Também nomes imponentes. E assim vai... E quando essa tropinha se casar? Será que alguém manterá uma árvore genealógica da família? Meu primo Anello, filho de minha tia Alice (irmã de minha mãe) e seu marido Anello (Sanvido – italiano de olho azul), vem mantendo uma genealogia da família. Preciso cooperar mais com ele, para que tenhamos um mapa relativamente completo para legar aos nossos descendentes. Ele já tem um netinho, também, o Matheus [Originalmente havia escrito Lucas. O Anello me enviou um e-mail corrigindo -- que tinha como Assunto "Wrong Gospel"...]. Vou encerrando por aqui porque minha bateria está no fim, e não quero precisar trocá-la. Já são 20h. Fica esta a crônica do meu último dia na França. Entre Paris (França) e Irún (Espanha), em 31 de outubro de 2006 (mas em território francês). October 31 HalloweenHoje, 31 de outubro, além de ser o dia da Reforma Protestante, é também o Dia das Bruxas – Halloween. Consta que aqueles dois grandes protetores da língua e da cultura brasileira, os deputados federais Aldo Rebelo (PCdoB - SP) e Ângela Guadagnin (PT - SP), ela felizmente defenestrada do congresso pelo povo brasileiro depois de sua dança infame em celebração dos corruPTos petistas, teriam conseguido fazer aprovar, pelo Congresso Nacional, a criação do Dia do Saci, a ser celebrado no mesmo dia 31 de outubro, com o objetivo, não disfarçado, de contrabalançar a influência de culturas alienígenas (leia-se: a cultura americana) e de resgatar figuras do folclore brasileiro. Dou essas informações com base na Wikipedia. Aldo Rebelo, que seria um excelente par para a Heloísa Helena (que, no entanto, parece mais interessada no Eduardo Matarazzo Suplicy), já havia tentado, em várias legislaturas, fazer aprovar um projeto de lei de sua autoria proibindo o uso de estrangeirismos na língua portuguesa, tais como “delivery”, “sale”, e até mesmo “software”, “walkman”, “notebook”, “laptop”, etc. Felizmente, parece que, neste caso, nunca conseguiu muita coisa além de atrair sobre si o ridículo de tantos quantos entendem a língua como um fenômeno vivo. (Em português, já se escreveu e falou “football”, “goalkeeper”, “soutien”, “shampoo”, etc., antes de esses termos virem a ser aportuguesados como “futebol”, “goleiro”, “sutiã”, “xampu”). De qualquer maneira, para comemorar o Halloween / Dia do Saci, nada melhor do que a Ângela Guadagnin dançar com uma vassoura, acompanhada do Aldo Rebelo pulando numa perna só. Conseguiríamos, assim, unir os folclores das duas culturas. A propósito, aqui na França, país tido como chauviniste, os restaurantes, e até o hotel em que me encontro, pertencente a uma rede genuinamente francesa, estão decorados com abóboras, esqueletos, e outros objetos alusivos ao dia. Infelizmente, vamos passar o dia no trem, a caminho para Lisboa, via Irún, na Espanha. Que os que têm condições, celebrem. No creo en brujas, pero que las hay, las hay!. A propósito, pelo bem do desenvolvimento cultural de todos nós, pedi ao meu software Babylon que traduzisse a frase “No creo en brujas, pero que las hay, las hay!” do espanhol para algumas outras línguas. Eis o que ele me forneceu: Portuguese: Não eu acredito em bruxas, mas que há eles, há eles! English: Not I believe in witches, but that there are them, there are them! French: Je ne crois pas en sorcières, mais qu'il y les est, il y les est! [boa a primeira parte, não?] Italian: Non credo in streghe, ma che ci li sono, ci li sono! German : Nicht glaube ich an Hexen, aber dass es sie gibt, gibt es sie! Acho que com isso deixo vocês todos sossegados até amanhã. Em Paris, 31 de outubro de 2006 Dia da Reforma ProtestanteHoje, 31 de outubro, é o Dia da Reforma Protestante. Deveria ser feriado no Brasil – há tanto feriado católico, deveria haver um protestante. Nesse dia, em 1517, Lutero pregou suas teses reformadoras na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg. Deixo registrado o fato. Lamento não ter passado, nesta viagem, por Wittenberg. Passei por Augsburg e por Genebra, cidades importantes para a Reforma, mas deveria ter passado por Wittenberg também - que, provavelmente, era a mais importante. Não era longe. Agora, porém, Inês é morta. Transcrevo, a seguir, para comemorar a data, material de autoria de Alexander Martins Vianna, encontrado no site http://www.espacoacademico.com.br/034/34tc_lutero.htm
[Versão bilíngüe, com texto original em latim]
Essas teses foram afixadas na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg a 1o de outubro de 1517. Era esse o modo usual de se anunciar uma “disputa”, prática regular da vida universitária. Ao fazer isso, não havia nada de excepcional na atitude de Lutero(1483-1546), pois apenas agia conforme costumes medievais ainda presentes nas universidades européias. Não se tratava de uma ação que deveria ter uma conotação individual, visto que as disputas eram debates que envolviam professores e estudantes, daí o fato de Lutero pedir para aqueles que não pudessem se fazer presentes às disputas que, ao menos, enviassem suas opiniões por escrito para serem lidas. Portanto, as “teses” deveriam ser vistas como “pontos a serem debatidos” em uma plenária. Nesse sentido, trata-se de um ato público envolvendo doutos e/ou seus estudantes, como demonstra o fato de as teses terem sido escritas originalmente em latim e não em alemão (língua familiar de Lutero). Observe-se também que o tom irônico e uma certa preocupação com métrica e rima fazem parte do ritual de “belo discurso”(arte da retórica), matéria obrigatória nas universidades da época. Portanto, ao lançar suas “95 Teses”, Lutero tornava públicas e não populares as suas idéias, com a finalidade de expor questões que o incomodavam a respeito das “vendas de perdão/indulgências”, cujas contradições práticas e doutrinais, somadas à corrupção de determinados setores do clero, eram vistas por ele como uma ameaça à credibilidade em relação à fé cristã e à Igreja de Roma. Isso significa que, ao tornar públicas suas teses, Lutero esperava receber o apoio do papa e não a sua censura. No entanto, depois de novas disputas teológicas, desta vez com agentes enviados pelo Papa Leão X(1475-1521; pontificado: 1513-1521), foi redigida contra Lutero uma carta de excomunhão datada em 21 de janeiro de 1521, que ele receberia meses depois. Entre 1517 e 1521, Lutero foi submetido a algumas disputas teológicas e quase metade de suas teses foi refutada pelos agentes teológicos do papa. Aos poucos, a situação fugiu dos muros da universidade, e muitas idéias de Lutero foram convenientemente distorcidas por membros da nobreza alemã, que utilizaram a “desculpa da fé” para tomar bens e terras de famílias inimigas e da própria Igreja. Toda esta situação foi consolidando uma situação de cisma religioso na Europa que estava longe das intenções de Lutero. Portanto, deve-se entender que a ação de Lutero misturou-se involuntariamente com interesses políticos e outras tendências do debate teológico que remontavam ao século XIII. Por isso, ele criticou tanto as revoltas camponesas (marcadamente anabatistas) quanto os nobres que misturavam o plano religioso com o secular. Inserido numa realidade mental de Antigo Regime, Lutero era muito cioso das hierarquias sociais e criticava a nobreza e parte do clero que não davam “bom exemplo” e, explorando os camponeses com tributações extraordinárias, alimentavam as suas revoltas. Assim, não surpreende que em 1520 tenha escrito “Apelo à Nobreza Germânica” e, em 1525, no contexto das guerras camponesas ocorridas na Alemanha, tenha escrito “Sobre a Autoridade Secular”, que tinham um teor claramente secularizante e favorável ao equilíbrio dos diretos e responsabilidades que justificavam, aos seus olhos, as hierarquias sociais. Portanto, frente a um mundo que se apresentava instável e inseguro, Lutero apelava para dispositivos tradicionais como meio de restaurar a segurança do mundo, mas com uma novidade que jamais foi praticada plenamente em parte nenhuma da Europa até o final do Antigo Regime: apenas quem julga a fé é Deus e, portanto, nenhuma autoridade política deve, em nome dela, causar desperdício de vida e bens de seus subordinados políticos. Valeria fazer uma indagação final: Se a ação de Lutero de lançar suas teses em 1517 não tinha nada de excepcional, por que posteriormente isso foi lembrado em muitos livros didáticos de história com conotações de heroicidade ou excepcionalidade? Em primeiro lugar, porque os desdobramentos não necessariamente luteranos de uma fé reformada ganhou avultado corpo e agentes sociais. Sem isso, não há quem celebre ou crie memória social em torno de determinado evento. Em segundo lugar, várias idéias de outros escritos de Lutero foram utilizadas por políticos e intelectuais da segunda metade do século XIX para, muito antes de Max Weber, fazer a ponte entre “protestantismo” e “espírito capitalista” e, assim, explicar a emergência imperial da Grã-Bretanha e do Império Prussiano, em contraponto ao “atraso ibérico” e à “decadência francesa”. No entanto, foi ao final do século XVII, contexto da expansão militar de Luís XIV (que revogou o Édito de Nantes em 1685), que se começou a celebrar nos meios “protestantes” o dia de lançamento das teses de Lutero como um “marco de ruptura” com Roma.
1483, 10 de novembro: Nasce Lutero. 1509: Henrique VIII(1491-1547) torna-se rei da Inglaterra. Nasce João Calvino em 10 de julho. 1517, 1.º de outubro: Lutero fixa as suas “95 Teses” na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg. 1518: Lutero recusa-se a retratar-se perante o papa Leão X(1475-1521; pontificado: 1513-1521). 1520, junho: Leão X condena 41 proposições de Lutero. 1521, 21 de janeiro: Leão X excomunga Lutero, mas leva vários meses até a ordem de excomunhão chegar à Alemanha. 1522: Lutero publica a sua advertência contra os distúrbios e publica a tradução do hebreu para o alemão do Novo Testamento, com gravuras de Lucas Kranach(1472-1553). 1523: Lutero publica texto que fala do direito de a comunidade de fiéis julgar toda a doutrina e nomear e demitir clérigos. 1524-1525: Guerra dos camponeses de Müntzer. 1525: Lutero publica texto contra os “profetas sagrados” e contra as “revoltas camponesas”. 1528: Mandato imperial ameaça de morte os anabatistas. 1530: Carlos I(1500-1558) – rei de Espanha desde 1516 e eleito imperador desde 1519 – fracassa em impor uma ortodoxia religiosa ao império. 1534: Ruptura de Henrique VIII da Inglaterra com Roma, supressão dos monastérios e concessão de permissão para os padres se casarem. Na Alemanha, Lutero publica a tradução do hebreu para o alemão do Velho Testamento. 1534-1535: Anabatistas tomam o poder em Münster, mas seu reino é derrubado por forças católicas e protestantes. 1536: Calvino edita “Instituições da Religião Cristã”. Há também a introdução da bíblia vernacular na Inglaterra. 1542: Calvino organiza o seu catecismo em Genebra. 1544: Calvino admoesta os anabatistas. 1545, 13 de dezembro: Começa o Concílio de Trento. 1546, 18 de fevereiro: Morre Lutero. 1547: Eduardo VI(1537-1553) assume o trono na Inglaterra e demonstra forte tendência calvinista. 1549: Eduardo VI lança o livro de pregações e pretende forçar a uniformidade religiosa em torno da fé reformada na Inglaterra. 1553: Morre Eduardo VI e sua irmã mais velha, Maria I(1516-1558), pretende o retorno da Inglaterra ao Catolicismo. 1558: Morre Carlos V da Espanha e Maria I da Inglaterra. Elizabeth (1533-1603) assume o trono da Inglaterra e tenta restaurar o anglicanismo de seu pai, Henrique VIII, o que significava evitar os extremos puritano(Eduardo VI) e católico(Maria I). 1560, Março: Fracasso de uma conspiração de jovens aristocratas huguenotes franceses contra a Casa Católica do Duque de Guise. Primeiro édito de tolerância é editado. 1561, Setembro-Novembro: Colóquio de Poissy, mas fracassa a tentativa de restaurar a unidade entre huguenotes e católicos na França. 1562, março: Massacre dos huguenotes em Vassy comandada pela Casa Católica de Guise. Primeira Guerra Civil Religiosa na França. 1563: Em março, Catarina de Médicis(1519-1589; regente: 1560-1674) tenta por fim à guerra civil francesa com a assinatura da Paz de Amboise, que concede certo grau de tolerância para os huguenotes. Neste mesmo ano, encerra-se o Concílio de Trento. 1564, 27 de maio: Morre João Calvino. Théodore de Béze(1519-605) sucede Calvino como líder da reforma protestante centrada em Genebra. 1572, 23-24 de agosto: Noite do Massacre de São Bartolomeu em Paris. 1598: Publicação do Édito de Nantes. 1685: Revogação do Édito de Nantes.
In nomine domini nostri Hiesu Christi. Amen.
Em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo. Amém.
1. Ao dizer: "Fazei penitência", etc. [Mt 4.17], o nosso Senhor e Mestre Jesus Cristo quis que toda a vida dos fiéis fosse penitência.
2. Esta penitência não pode ser entendida como penitência sacramental (isto é, da confissão e satisfação celebrada pelo ministério dos sacerdotes).
3. No entanto, ela não se refere apenas a uma penitência interior; sim, a penitência interior seria nula se, externamente, não produzisse toda sorte de mortificação da carne.
4. Por conseqüência, a pena perdura enquanto persiste o ódio de si mesmo (isto é a verdadeira penitência interior), ou seja, até a entrada do reino dos céus.
5. O papa não quer nem pode dispensar de quaisquer penas senão daquelas que impôs por decisão própria ou dos cânones.
6. O papa não tem o poder de perdoar culpa a não ser declarando ou confirmando que ela foi perdoada por Deus; ou, certamente, perdoados os casos que lhe são reservados. Se ele deixasse de observar essas limitações, a culpa permaneceria.
7. Deus não perdoa a culpa de qualquer pessoa sem, ao mesmo tempo, sujeitá-la, em tudo humilhada, ao sacerdote, seu vigário.
8. Os cânones penitenciais são impostos apenas aos vivos; segundo os mesmos cânones, nada deve ser imposto aos moribundos.
9. Por isso, o Espírito Santo nos beneficia através do papa quando este, em seus decretos, sempre exclui a circunstância da morte e da necessidade.
10. Agem mal e sem conhecimento de causa aqueles sacerdotes que reservam aos moribundos penitências canônicas para o purgatório.
11. Essa cizânia de transformar a pena canônica em pena do purgatório parece ter sido semeada enquanto os bispos certamente dormiam.
12. Antigamente se impunham as penas canônicas não depois, mas antes da absolvição, como verificação da verdadeira contrição.
13. Através da morte, os moribundos pagam tudo e já estão mortos para as leis canônicas, tendo, por direito, isenção das mesmas.
14. Saúde ou amor imperfeito no moribundo necessariamente traz consigo grande temor, e tanto mais quanto menor for o amor.
15. Este temor e horror por si sós já bastam (para não falar de outras coisas) para produzir a pena do purgatório, uma vez que estão próximos do horror do desespero.
16. Inferno, purgatório e céu parecem diferir da mesma forma que o desespero, o semidesespero e a segurança.
17. Parece desnecessário, para as almas no purgatório, que o horror diminua na medida em que cresce o amor.
18. Parece não ter sido provado, nem por meio de argumentos racionais nem da Escritura, que elas se encontrem fora do estado de mérito ou de crescimento no amor.
19. Também parece não ter sido provado que as almas no purgatório estejam certas de sua bem-aventurança, ao menos não todas, mesmo que nós, de nossa parte, tenhamos plena certeza disso.
20. Portanto, por remissão plena de todas as penas, o papa não entende simplesmente todas, mas somente aquelas que ele mesmo impôs.
21. Erram, portanto, os pregadores de indulgências que afirmam que a pessoa é absolvida de toda pena e salva pelas indulgências do papa.
22. Com efeito, ele não dispensa as almas no purgatório de uma única pena que, segundo os cânones, elas deveriam ter pago nesta vida.
23. Se é que se pode dar algum perdão de todas as penas a alguém, ele, certamente, só é dado aos mais perfeitos, isto é, pouquíssimos.
24. Por isso, a maior parte do povo está sendo necessariamente ludibriada por essa magnífica e indistinta promessa de absolvição da pena.
25. O mesmo poder que o papa tem sobre o purgatório de modo geral, qualquer bispo e cura tem em sua diocese e paróquia em particular.
26. O papa faz muito bem ao dar remissão às almas não pelo poder das chaves (que ele não tem), mas por meio de intercessão.
27. Pregam doutrina humana os que dizem que, tão logo tilintar a moeda lançada na caixa, a alma sairá voando [do purgatório para o céu].
28. Certo é que, ao tilintar a moeda na caixa [1] , pode aumentar o lucro e a cobiça; a intercessão da Igreja, porém, depende apenas da vontade de Deus.
29. E quem é que sabe se todas as almas no purgatório querem ser resgatadas, como na história contada a respeito de São Severino e São Pascoal?
30. Ninguém tem certeza da veracidade de sua contrição, muito menos de haver conseguido plena remissão.
31. Tão raro como quem é penitente de verdade é quem adquire autenticamente as indulgências, ou seja, é raríssimo.
32. Serão condenados em eternidade, juntamente com seus mestres, aqueles que se julgam seguros de sua salvação através de carta de indulgência.
33. Deve-se ter muita cautela com aqueles que dizem serem as indulgências do papa aquela inestimável dádiva de Deus através da qual a pessoa é reconciliada com Ele.
34. Pois aquelas graças das indulgências se referem somente às penas de satisfação sacramental, determinadas por seres humanos.
35. Os que ensinam que a contrição não é necessária para obter redenção ou indulgência, estão pregando doutrinas incompatíveis com o cristão.
36. Qualquer cristão que está verdadeiramente contrito tem remissão plena tanto da pena como da culpa, que são suas dívidas, mesmo sem uma carta de indulgência.
37. Qualquer cristão verdadeiro, vivo ou morto, participa de todos os benefícios de Cristo e da Igreja, que são dons de Deus, mesmo sem carta de indulgência.
38. Contudo, o perdão distribuído pelo papa não deve ser desprezado, pois – como disse – é uma declaração da remissão divina [2] .
39. Até mesmo para os mais doutos teólogos é dificílimo exaltar simultaneamente perante o povo a liberalidade de indulgências e a verdadeira contrição. [3]
40. A verdadeira contrição procura e ama as penas, ao passo que a abundância das indulgências as afrouxa e faz odiá-las, ou pelo menos dá ocasião para tanto. [4]
41. Deve-se pregar com muita cautela sobre as indulgências apostólicas, para que o povo não as julgue erroneamente como preferíveis às demais boas obras do amor. [5]
42. Deve-se ensinar aos cristãos que não é pensamento do papa que a compra de indulgências possa, de alguma forma, ser comparada com as obras de misericórdia.
43. Deve-se ensinar aos cristãos que, dando ao pobre ou emprestando ao necessitado, procedem melhor do que se comprassem indulgências. [6]
44. Ocorre que através da obra de amor cresce o amor e a pessoa se torna melhor, ao passo que com as indulgências ela não se torna melhor, mas apenas mais livre da pena.
45. Deve-se ensinar aos cristãos que quem vê um carente e o negligencia para gastar com indulgências obtém para si não as indulgências do papa, mas a ira de Deus.
46. Deve-se ensinar aos cristãos que, se não tiverem bens em abundância, devem conservar o que é necessário para sua casa e de forma alguma desperdiçar dinheiro com indulgência.
47. Deve-se ensinar aos cristãos que a compra de indulgências é livre e não constitui obrigação.
48. Deve ensinar-se aos cristãos que, ao conceder perdões, o papa tem mais desejo (assim como tem mais necessidade) de oração devota em seu favor do que do dinheiro que se está pronto a pagar.
49. Deve-se ensinar aos cristãos que as indulgências do papa são úteis se não depositam sua confiança nelas, porém, extremamente prejudiciais se perdem o temor de Deus por causa delas.
50. Deve-se ensinar aos cristãos que, se o papa soubesse das exações dos pregadores de indulgências, preferiria reduzir a cinzas a Basílica de S. Pedro a edificá-la com a pele, a carne e os ossos de suas ovelhas.
51. Deve-se ensinar aos cristãos que o papa estaria disposto – como é seu dever – a dar do seu dinheiro àqueles muitos de quem alguns pregadores de indulgências extorquem ardilosamente o dinheiro, mesmo que para isto fosse necessário vender a Basílica de S. Pedro.
52. Vã é a confiança na salvação por meio de cartas de indulgências, mesmo que o comissário ou até mesmo o próprio papa desse sua alma como garantia pelas mesmas.
53. São inimigos de Cristo e do Papa aqueles que, por causa da pregação de indulgências, fazem calar por inteiro a palavra de Deus nas demais igrejas.
54. Ofende-se a palavra de Deus quando, em um mesmo sermão, se dedica tanto ou mais tempo às indulgências do que a ela.
55. A atitude do Papa necessariamente é: se as indulgências (que são o menos importante) são celebradas com um toque de sino, uma procissão e uma cerimônia, o Evangelho (que é o mais importante) deve ser anunciado com uma centena de sinos, procissões e cerimônias.
56. Os tesouros da Igreja, a partir dos quais o papa concede as indulgências, não são suficientemente mencionados nem conhecidos entre o povo de Cristo.
57. É evidente que eles, certamente, não são de natureza temporal, visto que muitos pregadores não os distribuem tão facilmente, mas apenas os ajuntam.
58. Eles tampouco são os méritos de Cristo e dos santos, pois estes sempre operam, sem o papa, a graça do ser humano interior e a cruz, a morte e o inferno do ser humano exterior.
59. S. Lourenço disse que os pobres da Igreja são os tesouros da mesma, empregando, no entanto, a palavra como era usada em sua época.
60. É sem temeridade que dizemos que as chaves da Igreja, que foram proporcionadas pelo mérito de Cristo, constituem estes tesouros.
61. Pois está claro que, para a remissão das penas e dos casos especiais, o poder do papa por si só é suficiente. [7]
62. O verdadeiro tesouro da Igreja é o santíssimo Evangelho da glória e da graça de Deus.
63. Mas este tesouro é certamente o mais odiado, pois faz com que os primeiros sejam os últimos.
64. Em contrapartida, o tesouro das indulgências é certamente o mais benquisto, pois faz dos últimos os primeiros.
65. Portanto, os tesouros do Evangelho são as redes com que outrora se pescavam homens possuidores de riquezas.
66. Os tesouros das indulgências, por sua vez, são as redes com que hoje se pesca a riqueza dos homens.
67. As indulgências apregoadas pelos seus vendedores como as maiores graças realmente podem ser entendidas como tais, na medida em que dão boa renda.
68. Entretanto, na verdade, elas são as graças mais ínfimas em comparação com a graça de Deus e a piedade da cruz.
69. Os bispos e curas têm a obrigação de admitir com toda a reverência os comissários de indulgências apostólicas.
70. Têm, porém, a obrigação ainda maior de observar com os dois olhos e atentar com ambos os ouvidos para que esses comissários não preguem os seus próprios sonhos em lugar do que lhes foi incumbidos pelo papa.
71. Seja excomungado e amaldiçoado quem falar contra a verdade das indulgências apostólicas.
72. Seja bendito, porém, quem ficar alerta contra a devassidão e licenciosidade das palavras de um pregador de indulgências.
73. Assim como o papa, com razão, fulmina aqueles que, de qualquer forma, procuram defraudar o comércio de indulgências,
74. muito mais deseja fulminar aqueles que, a pretexto das indulgências, procuram fraudar a santa caridade e verdade.
75. A opinião de que as indulgências papais são tão eficazes a ponto de poderem absolver um homem mesmo que tivesse violentado a mãe de Deus, caso isso fosse possível, é loucura.
76. Afirmamos, pelo contrário, que as indulgências papais não podem anular sequer o menor dos pecados venais no que se refere à sua culpa.
77. A afirmação de que nem mesmo São Pedro, caso fosse o papa atualmente, poderia conceder maiores graças é blasfêmia contra São Pedro e o Papa.
78. Dizemos contra isto que qualquer papa, mesmo São Pedro, tem maiores graças que essas, a saber, o Evangelho, as virtudes, as graças da administração (ou da cura), etc., como está escrito em I.Coríntios XII.
79. É blasfêmia dizer que a cruz com as armas do papa, insigneamente erguida, equivale à cruz de Cristo.
80. Terão que prestar contas os bispos, curas e teólogos que permitem que semelhantes sermões sejam difundidos entre o povo.
81. Essa licenciosa pregação de indulgências faz com que não seja fácil nem para os homens doutos defender a dignidade do papa contra calúnias ou questões, sem dúvida argutas, dos leigos.
82. Por exemplo: Por que o papa não esvazia o purgatório por causa do santíssimo amor e da extrema necessidade das almas – o que seria a mais justa de todas as causas –, se redime um número infinito de almas por causa do funestíssimo dinheiro para a construção da basílica – que é uma causa tão insignificante?
83. Do mesmo modo: Por que se mantêm as exéquias e os aniversários dos falecidos e por que ele não restitui ou permite que se recebam de volta as doações efetuadas em favor deles, visto que já não é justo orar pelos redimidos?
84. Do mesmo modo: Que nova piedade de Deus e do papa é essa que, por causa do dinheiro, permite ao ímpio e inimigo redimir uma alma piedosa e amiga de Deus, mas não a redime por causa da necessidade da mesma alma piedosa e dileta por amor gratuito?
85. Do mesmo modo: Por que os cânones penitenciais – de fato e por desuso já há muito revogados e mortos – ainda assim são redimidos com dinheiro, pela concessão de indulgências, como se ainda estivessem em pleno vigor?
86. Do mesmo modo: Por que o papa, cuja fortuna hoje é maior do que a dos ricos mais crassos, não constrói com seu próprio dinheiro ao menos esta uma basílica de São Pedro, ao invés de fazê-lo com o dinheiro dos pobres fiéis?
87. Do mesmo modo: O que é que o papa perdoa e concede àqueles que, pela contrição perfeita, têm direito à plena remissão e participação?
88. Do mesmo modo: Que benefício maior se poderia proporcionar à Igreja do que se o papa, assim como agora o faz uma vez, da mesma forma concedesse essas remissões e participações cem vezes ao dia a qualquer dos fiéis?
89. Já que, com as indulgências, o papa procura mais a salvação das almas do que o dinheiro, por que suspende as cartas e indulgências, outrora já concedidas, se são igualmente eficazes?
90. Reprimir esses argumentos muito perspicazes dos leigos somente pela força, sem refutá-los apresentando razões, significa expor a Igreja e o papa à zombaria dos inimigos e fazer os cristãos infelizes.
91. Se, portanto, as indulgências fossem pregadas em conformidade com o espírito e a opinião do papa, todas essas objeções poderiam ser facilmente respondidas e nem mesmo teriam surgido.
92. Portanto, fora com todos esses profetas que dizem ao povo de Cristo "Paz, paz!" sem que haja paz!
93. Que prosperem todos os profetas que dizem ao povo de Cristo "Cruz! Cruz!" sem que haja cruz! [8]
94. Devem-se exortar os cristãos a que se esforcem por seguir a Cristo, seu cabeça, através das penas, da morte e do inferno.
95. E que confiem entrar no céu antes passando por muitas tribulações do que por meio da confiança da paz.
[1] Lutero refere-se à caixa de coleta de rendas oriundas da venda de “cartas de indulgência”. (Vide Tese 36) [2] Observa neste trecho o quanto a postura de Lutero não é cismática, mas reformadora, pois reconhecia, pelo menos em 1517, o papel do Papa como intercessor.(Vide Teses 61, 69, 70, 71, 72, 73, 74, 75, 76, 77, 78, 79, 80, 81, 83, 84, 87, 89, 90, 91) [3] No século XVII, o padre católico Gregório da Mattos Guerra(1633-1696) voltaria, com sarcasmos, a este tema em seu poema-missiva “A Jesus Cristo Nosso Senhor”: Pequei, Senhor; mas não porque hei pecado./Da vossa clemência me despido,/porque, quanto mais tenho delinqüido,/vos tenho a perdoar mais empenhado./.../Eu sou, Senhor, a ovelha desgarrada./ Cobrai-a e não queirais, pastor divino,/perder na vossa ovelha a vossa glória. (MATOS, Gregório de. Poemas Escolhidos. São Paulo, Cultrix, 1976. p. 297).(Vide Teses 44, 49, 67, 76, 84, 93) [4] Lutero é marcadamente agostiniano e, por isso, insiste no valor pedagógico do castigo, na utilidade do sofrimento, no recurso necessário aos métodos repressivos – tanto em matéria de fé quanto de política.(Vide Teses 94, 95) [5] Em 1525, Lutero afirmaria abertamente que condenada estaria toda a obra que não nascesse do amor, no sentido da “charitas” de Cristo, o que significava que a “obra” concebida como “cálculo de indulgência” não teria o menor efeito, mesmo porque não caberia ao homem julgar a fé de outrem, pois somente Deus conheceria o que se passava no coração dos homens. O efeito disso, diferentemente do tom ainda conciliador de 1517, era tornar a instituição eclesiástica completamente desnecessária para reger o “mundo interior” do cristão.(Vide Teses 47, 48, 49, 51, 52, 53, 55, 57, 58, 65, 66) [6] Esta tese tem dois alvos: em âmbito geral, a elite nobre e não-nobre alemã que desperdiçava recursos em encomendas de missas ou patrocínio de igrejas às custas da miséria ou exação de seus subordinados; em âmbito particular, o Cardeal Alberto de Brandeburgo(1490-1545). Para ter sua confirmação para o Arcebispado de Mayence em 1514, Alberto tinha que conseguir uma soma considerável e enviá-la para Roma. Para tanto, ele fez um empréstimo e o assentou, com autorização papal, sobre a arrecadação das indulgências vinculadas à construção da Basílica de São Pedro em Roma. Segundo o acordo entre Alberto e o Papado, metade do arrecadado iria para a construção da basílica e a outra metade para Alberto quitar suas dívidas provenientes da investidura no arcebispado. No final das contas, o Papa teria o conjunto das rendas de Brandeburgo vinculadas às indulgências.(Vide Teses 46, 47, 48, 50, 51, 52, 55, 56, 59, 65, 66, 82, 83, 85, 86, 88) [7] Vide Tese 38. [8] Com tal imprecação, Lutero espera uma reforma moral da Igreja e seu rebanho, o que significava a interiorização da fé, da contrição e da “charitas”.(Supra notas “3” e “5”) (*) Revisão técnica e notas, estudo introdutório da fonte e organização da cronologia, por Alexander Martins Vianna. [Material transcrito de http://www.espacoacademico.com.br/034/34tc_lutero.htm] Em Paris, 31 de outubro de 2006 |
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